Archive | Agosto 2012

Desafio Total e O Legado de Bourne formam o reino do entretenimento ligeiro

Nem O Legado de Bourne nem Desafio Total desapontam senão por não cumprirem as expetativas, e tendo em conta que no caso de num as expetativas seriam que fosse uma cópia barata e sem razão de ser na saga Bourne, e de outro um remake de um clássico de sci-fi/future pulp que fosse uma completa violação pela máquina de Hollywood (que ainda hoje se destacou por ser enxovalhada na imprensa brasileira como fruto de pesar e frustração para o realizador José Padilha, responsável por outro remake de um filme de Paul Verhoeven, Robocop), então podem dar boas graças à vossa divindade cinematográfica, seja Hitchcock, Kubrick ou Lang, ou quem quer que seja, que não terão que sofrer no cinema.

Os filmes funcionam, um mais que o outro, sendo Desafio Total a obra mais fraca porque não oferece nada de novo. Mesmo assim, parabéns por nos terem mantido entretidos e até, cativados.

Agora, nem todos estarão preparados para a apreciação que vos propomos.

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Há lobotomias que vêm por bem. Desafio Total é um filme que impressionará aos não seguidores do filme original, os desconhecedores dos clássicos dos anos 80 de acção/ficção ou fãs devotos de Verhoeven, apenas ao público comum, generalista e sem paciência para ser exposto a algo mais transcendente que o pacote de ação futurista caseiro que Wiseman oferece.

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Crítica anunciada: Argumento do remake de Robocop

Dentro em breve o adorado MastigaOssos irá colocar a sua crítica ao argumento do filme de Padilha que oferece promessas de, mediocridade.

O único vislumbre de qualidade do que esse filme pode trazer está neste concept art que nem está ligado ao filme. É fraco, meus amigos, esperemos que uma realização pós-moderna ajude a superar um argumento lastimável.
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Uncharted tem um novo par de argumentistas especializados em…

Aqui no Ossos, ainda não lemos a versão de David O. Russell para a adaptação de Uncharted (videojogo exclusivo para os sistemas Sony), ao cinema, nem sequer tivemos conhecimento de qual seria a abordagem de Neil Burger, mas como fãs de videojogos e cinema em medidas quase equivalentes, estivemos sempre na corda bamba em relação ao resultado final. Sabíamos que podíamos até hoje, de certa forma confiar no talento dos envolvidos e no valor que se encontra na base do videojogo. Ao mesmo tempo estávamos marcados por entregas desapontantes de adaptações anteriores, o que nos deixava sempre em alerta para essa possibilidade se repetir, mais uma má adaptação de um universo videojogavel.

Com a retirada de Neil Burger, um realizador que já por si sabe molestar um argumento – pobre, pobre coitado que tenha visto Limitless e feito questão de não ir à casa de banho durante o filme para não perder momentos importantes da história – mas que apresenta quase sempre escolhas visuais que garantem que parte do espetáculo será de qualidade, vemos o argumento de Uncharted cair nas mãos de um grupo mais inepto ainda de argumentistas. Não por não saberem escrever, não. O casal Wibberley não é ignorante nenhum nas técnicas e formulas de argumento Hollywoodesco, é simplesmente um escravo agradecido do modelo genérico. Uncharted destina-se a mais uma adaptação lastimável, por parte de teimosia apenas.

Teimosia essa não é nada mais que a governação dos estúdios de Hollywood que procuram formatar o material de origem de modo a se adequar a um orçamento viável e torná-lo o mais abrangente possível em termos de audiência, o que limita e danifica os mecanismos narrativos e o elemento de inovação, quer no enredo, personagens, até sequências de ação. O que conta é o mais do mesmo, o brilharete segundo sucesso garantido – vago, previsível, contido e sem ponta de verdadeira ameaça para o protagonista. E há quem se queixe dos filmes dos anos 80, mas não se apercebem que Hollywood iludiu as audiências a pensarem que lidam com o verdadeiro cinema pós-moderno.

Talvez Michael Fassbender e a Ubisoft nos possam salvar…

Poster para LINCOLN impressiona pela irrelevância

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Chegou o póster do último filme de Steven Spielberg e indica, como se teme aqui nestas partes, que tome por garantido o interesse e fascínio do público, sem propriamente fornecer nada de novo.

Não sabemos ao certo se será um novo olhar sobre a figura icónica da presidência dos EUA, um dos grandes defensores dos direitos civis na nação dos bravos e livres, ou se será apenas mais um retrato laureado da tão amada alma virtuosa.

O póster é completamente simbólico no sentido que apela à sobriedade do mandato, e vida de Lincoln, mas não apresenta qualquer brilho estético. Tememos que um filme que parta de uma figura tão conhecida e já naturalmente valorizada, que nunca encontra contestação no seu mérito, não fuja muito do defeito do póster, uma completa devoção aos paradigmas de louvor a que Hollywood habituou as suas audiências, escolhendo sempre como alvos das suas biografias figuras cuja virtude é incontestável.

Não nos agrada isto, nada mesmo. O que nos resta mais conhecer sobre Lincoln que não seja redundante? Não há outras figuras na história mundial à espera de serem chamados para a ribalta? Afinal quantas vezes mais vai a audiência gastar dinheiro para ver a mesma história?

Nada mesmo.

Filipe Santos

Brave-Indomável, domada antes do tempo

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Uma produção dolorosa tem tendência a gerar filmes problemáticos que dificilmente ascendem a algo mais que estatuto de culto, apesar de haver umas quantas reverenciadas obras-primas que foram agressivamente contestadas na altura da sua estreia. A expectativa tende a ser baixa nos dias de hoje quando temos os olhos colados nestes monitores hipnóticos e não perdemos uma única notícia dos percalços de uma qualquer produção quando vem de um estúdio de renome. Felizmente, no que toca à Pixar, ainda só desapontou uma vez, com Cars 2, por isso não se temia realisticamente que Brave viesse a errar.

Mas errou, apresentou uma história que não é sua, segundo um modelo que não é seu. O estúdio que se destacou por unir subtilmente as necessidades das crianças com os valores da idade adulta, perdeu o pulso sob o jugo da Disney e ignorou completamente parte do seu público: os pais das crianças que levam os filhos ao cinema.

A história de uma princesa escocesa que aspira a um tratamento de igualdade numa sociedade, tornada ligeira para as crianças, governada por comandos masculinos, poderia ir mais além do que a relutância em aceitar o casamento forçado e a aspiração a passar os dias a andar de cavalo em busca do por do sol, escalar cataratas e praticar arco e flecha sem qualquer noção de perigo – tudo isto foi colocado em termos semelhantes pelo própria pai da protagonista Meridia, o rei Fergus. Poderia sim ir mais longe que um simples protesto infantil. Aqui, Meridia é forçada a escolher o seu pretendente, e relutante em submeter-se às exigências de uma corte real, decide procurar ajuda nos serviços de uma bruxa tresloucada, que acaba por transformar a sua mãe num urso, criatura simbólica do medo e terror da floresta. As duas tem que se devotar a encontrar uma solução para quebrar o feitiço, mas só o podem fazer se aprenderem a respeitar-se e trabalhando em conjunto, vão voltar a fundir o elo que em tempos era inquebrável.

Lá está, o filme está absolutamente destinado a crianças, e apesar de conseguir em momentos específicos criar uma lágrima no olho dos adultos mais cínicos com sequências muito bem formatadas sobre a perda e a aproximação emocional entre uma mãe e filha que não sabem como comunicar uma com a outra, nunca chega a patamares adultos. É puro revivalismo da leveza de uma escola de cinema Disney que se desejava estar ultrapassada.

Pacific Rim – crítica ao argumento

Cerca de 132 páginas de porrada de colossos e muita história mal aproveitada. A culpa não é de Hollywood, é da adolescência.

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É bom? Não, não é bom. É medíocre para quem conhece o género, surpreendente para quem não está familiarizado, e vulgar para um argumentista. Não chega a ser mau, apenas dolorosamente familiar e conveniente. Não visa surpreender e não apresenta nada de inovador, apenas uma abordagem claramente à Del Toro: clássica no argumento, dependente totalmente do brilho visual do realizador e apesar de seguir um esquema de proximidade humana com os protagonistas, está demasiado presa a elementos românticos baratos para aprofundar o dramatismo. É o típico blockbuster, espampanante e pouco original.

Agora tenham em conta que estou a falar da versão presente do argumento e não da história do produto final. Do que já foi revelado na net, vários elementos podem ter sido alterados, nomeadamente a personagem de Idris Elba, que parece ser uma mistura de dois secundários que encontramos no argumento, o Lt Pentecost e o General Takada, o comandante da organização responsável pela defesa do planeta terra contra os poderosos Kaiju. Também tenham em conta que apesar das limitações narrativas e fraquezas, visualmente pode ser captado de modo apelativo o que compensará, até certo nível, uma história familiar e hollywoodesca.

Nunca vai mais longe que leve entretenimento escapista, e se por vezes fornece alguns traços de existencialismo com o uso de elementos de visão metafísica e sonhos existencialistas que refletem o trauma dos personagens e preveem as catástrofes iminentes através de simbolismos (onde Del Toro aproveita para integrar alguns traços característicos das perturbações Lovecraftianas que tanto venera, paisagens caóticas de carne viva e rios de sangue, montanhas vivas e tentaculares a consumir o mundo transformado num verdadeiro reino de chamas), nunca chega a atingir a verosimilhança que merecia. Apesar de o filme se sentir verídico e o universo estar consistente, não é profundo.

Oslo, 31 de Agosto

Oslo, 31 de Agosto, é um retrato que chega tarde demais, e não deixa de ser tão mais trágico, tão mais belo por isso. Hoje de manhã não estava com vontade alguma de atender um visionamento de um drama existencial sobre a tragédia de um toxicodependente que procura recomeçar a sua vida indo à cidade para uma entrevista de emprego, mas se apercebe estar condicionado pelo passado.

Devo dizer que durante vários momentos do filme esse meu receio comprovou-se, não por ter um ritmo seco ou estar mal dramatizado, mas porque percebi que o meu medo seria o de vir a constatar uma representação da negação da esperança. Tinha receio de ver o protagonista a cometer os previsíveis erros dos protagonistas trágicos que procuram na droga um sossego alienante. Neste caso o previsível não seria um insulto à estrutura narrativa, mas um aviso ao espetador. O meu medo comprovou-se, Anders comete todos os erros necessários para chegar à mesma conclusão que a audiência e o criador do filme: a vida, como os filmes, não é mais que uma montra dos erros que cometemos.
Oslo, 31 de Agosto, trata a cobardia e o registo estanque a que a nossa sociedade chegou com impressionante franqueza. Não é um filme que eu possa criticar formalmente, não aspira a ser fascinante visualmente, ou em qualquer elemento espetacular da Sétima Arté, é puramente um trabalho de honestidade sobra a falta de esperança. Bons filmes ditam os seus ideais com franqueza, e Oslo clarifica, quando Anders reencontra o velho amigo e os momentos parecem fugir, parecem negar a proximidade, quando a irmã se recusa a encontrar-se com ele, quando a mulher que pensou amar lhe recusa atender as chamadas: não há carinho, não há contato, não há razão de viver longe do passado. É um prisioneiro do destino, e o destino dita que o seu fim será trágico.

Conforme Anders arruina a sua entrevista de emprego, não se apoiando na falsa compreensão do editor, fá-lo com a consciência de alguém que sabe não ter hipótese de mudar o passado. Aqui o protagonista é um verdadeiro prisioneiro do seu filme, uma amostra de repressão social e clausura emocional que já não tem hipótese de começar de novo.

Anders Danielsen Lie é o Anders do filme, sem outros recursos senão a sua total entrega para o papel, mostra-se verídico, como a própria cidade. Tal como Oslo, os seus prazeres são passageiros, a sua fé é inexistente, a sua humildade surge do sofrimento e dor que causou aos outros e a si próprio. Não é mutável, é um símbolo, e infelizmente para nós, é isso que o realizador Joachim Trier dita da humanidade: nós não podemos escapar aos nossos próprios símbolos, o passado nunca nos pertence, mas ao julgamento dos outros. Perdeu a fé num futuro sem consequências. O drama, maravilhosamente encadeado com momentos bastante tocantes em que Anders revisita os protagonistas do seu passado, amigos próximos, conhecidos, velhas amantes, nenhum deles capaz de reconhecer a mágoa que ele carrega dita que os medos do protagonista se comprovam, está vazio. É um prisioneiro do Destino e todos os passos que tomam fazem dele um joguete que é a linearidade de uma vida julgado.
Talvez porque o argumentista não acredita nisso, talvez porque não é pretendido que o vejamos de outra forma, ao longo da desventura de deboche em que Anders regressa aos seus velhos vícios, somos confrontados quer com o desespero, quer com a possibilidade de felicidade, mas no fundo não passa tudo de oportunidades de cometer os mesmos erros.

E o que é que alimenta essa conclusão? A cobardia, o limite social que dita que os nossos comportamentos só podem ter um de dois resultados: produtivo ou destrutivo. Como pode haver segundas hipóteses numa sociedade que ensina os seus membros a não esquecer o passado? A cobardia é rei, e o filme é o seu reino.

Com isso em mente, Anders não terá outro recurso senão fugir do mundo como o fez uma primeira vez com a droga, mas perguntamo-nos se a escolha não será egoísta? Viver é um egoísmo, atacamos sempre o espaço de outrem. Maior egoísmo foi eu não querer ver o filme, e quando este terminou, querer esquecê-lo pelos paralelismos que me trouxe.

Oslo não surpreende, antes afeta pela repetição, relembra-nos que não estamos prontos para mudar, estamos estanques, prisioneiros das nossas vidas, dessa cidade.

Parece-me que o compromisso pretendido entre criadores e público foi alcançado, não?

Filipe Santos