Pacific Rim – crítica ao argumento

Ora, se a estrutura é serva de uma indústria automática e que procura um público cada vez mais generalista, então o enredo não poderia ser muito melhor. Como já perceberam, a aventura dos protagonistas é puramente o crescimento clássico de heróis que se apoiam um no outro para ultrapassar os traumas causados pelos Kaiju: no caso de Raleigh, a morte do irmão, no caso de Mako, o abandono do seu pai durante o primeiro ataque de sempre, a Tokyo, numa sequência clara de homenagem a Godzilla. Ora, isto trata-se de uma fórmula cuja eficácia está garantida, apesar de não elevar em nada o drama e a consistência dos personagens ser, infelizmente, formatada por estereótipos ocidentais e a visão do herói como o modelo virtuoso Americano, dotado de apenas um defeito moral, e só um, o que geralmente funcionada com as audiências. Mas funciona porquê? Porque as audiências habituaram-se a ver os seus contos clássicos retratados com cada vez menos inovação e complexidade dramática. O quanto menos complexo e desafiante for, mais gente irá apreciar. Chama-se globalização de mercado.

Os protagonistas lá se apaixonam, o controlo dos robots nunca foi melhor e começam a fazer picadinho de cada Kaiju que espreita fora da água, mas há um problema maior, o número de Kaijus a aparecer tornar-se mais frequente. Algo está a enviá-los do universo paralelo, o Anteverse, com empenho cada vez mais ativo em destruir a raça humana. Os nossos heróis, graças à ajuda de um curioso e bastante conveniente duo de jornalista/cientista curioso (a jornalista, Flick, é a ex-namorada do falecido irmão de Raleigh e quere ajudá-lo a regressar à normalidade e a ser feliz, ao mesmo tempo que luta pela verdade sobre a invasão de Kaijus…sim, é isso mesmo. Viva a coincidência) e bastante conveniente, que se trata de uma invasão extraterrestre, ou extradimensional, e que o nosso mundo teria sido criado por essa raça misteriosa que controla os Kaiju, como um novo projeto de habitação para o qual se pretendem mudar.

Monstros gigantes estão a sair de uma fossa marinha há décadas, e ninguém se lembra de investigar isso a fundo ou de questionar isso às autoridades, num mundo de biliões? Quando é revelado que se trata de uma invasão, quem é que fica genuinamente surpreso? Não só não é original, como é aborrecido o enredo.

Os nossos heróis, sendo heróis, decidem assumir a liderança de um projeto suicida para fechar o portal para o outro universo, e enquanto os restantes mechs batalham um número cada vez maior de Kaijus, lá vão eles rebentar com o portal, sendo que perdem o seu valioso Jaeger (robot gigante) “Gypsy Danger”, o primeiro Jaeger de LA, o modelo que inspirou Raleigh a seguir carreira como piloto e claro está, um modelo velho e antiquado, mas seguro e com o qual se pode contar. O que não contou foi com as minhas lágrimas ao ser destruído pelos Kaijus visto que não está nada bem dramatizado o momento épico de vitória. Ao último segundo, Raleigh e Mako escapam para contar como tudo correu e o filme termina com Raleigh e Mako a beijarem-se na capsula salva-vidas a boiar no Oceano Pacífico. Viva a democracia, viva a hipocrisia do colonialismo e exploração de territórios virgens.

No dia em que sejam os humanos a aplicarem essa estratégia devido à sobrepopulação do planeta, também serão considerados vilões? Estão a ver, essa é uma de muitas perguntas interessantes que nunca é colocada num filme que não ambiciona ser mais que pipoqueiro. Até a origem dos jaegers nunca é questionada, nem o porquê do seu funcionamento. E diga-se desde já que os Kaiju são meros pedaços de carne para canhão gigante. Até os Transformers tem mais personalidade.

Mesmo que esta estrutura comercial vos agrade, qual é o problema aqui? O problema é que Hollywood desistiu de conteúdos originais – e isto não é um conteúdo original porque a fórmula é assumidamente um plágio de todos os modelos japoneses de aventura mech e monster-mash de série B – sem sequer procurar ser uma encarnação que eleve o género além de diversão infantil. Basta uma estrutura clássica, básica, sem apelo fora o espetáculo visual, e o público deve engolir as bojardas que o esperam na sala de cinema sem questionar a lógica do mundo, o tema superficial e a falta de complexidade dos personagens.

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Como nunca estive legalmente empregado, não posso dizer que estou a um passo do desemprego, mas só com o tempo livre presumido de alguém nesse estado poderia criar este espaço. Bem-vindos e demorem-se, espero que...

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