Pacific Rim – crítica ao argumento

Devo admitir que há pelo menos três elementos que devem ser reconhecidos pela audácia de procurar atribuir alguma complexidade aos personagens:

*o facto de que o irmão de Raleigh ser seu co-piloto, e que na condução de um jaeger ocorrer uma simbiose de mentes que se mantêm mesmo fora do robot, e dura para toda a vida. Raleigh estava apaixonado pela namorada do irmão, Flick, e todas as vezes conseguia perceber o que era amá-la, emocionalmente e fisicamente, mas não podia usufruir disso. Essa backstory é a de uma tortura emocional que pode ter alimentado o desejo de ver o seu irmão morto…infelizmente, por muito potencial que tenha para o conflito, comprova-se que o herói, à boa maneira juvenil, tentou salvar o irmão na ocasião traumatizante. Uma achega de um conflito moral ambíguo, nunca é desenvolvida com coragem.

No entanto, quando Flick, a repórter e noiva do falecido irmão, tem uma cena dedicada só a ela em que se liga nevralgicamente a um cérebro capturado de um Kaiju e tem oportunidade de vislumbrar o Anteverse com os próprios olhos, a problemática da perda pessoal é desenvolvida com coragem: essa cena é emocionalmente bastante poderosa, porque estando atormentada pelo trauma da perda do seu noivo e ao verificar a ameaça iminente que o Anteverse simboliza, Flick perde completamente a pouca esperança que tem e quase que se entrega à morte cerebral. É um bocado facilitado pelo argumento, mas é apelativo pela visceralidade das emoções apresentadas, a melancolia gerada pela perda leva ao desapego da vida.

Repare-se que o irmão é morto por uma tartaruga gigante, se isso não demonstra a falta de imaginação do filme e o quão inconveniente pode ser a lidar com drama, então não sei que vos diga.

Referi que há três elementos do enredo que tem alguma qualidade, e aqui estão os dois que restam:

*o facto de que o nosso mundo, o nosso universo, terá sido criado como uma cópia do Antiverso, a modos de ser um bote salva-vidas para que a raça misteriosa (pelos vistos dotada de poderes criativos divinos), pudesse subsistir, e passar do seu universo moribundo para o nosso. Bom material para questionar as práticas coloniais humanas e a aspiração natural para se subsistir ao custo de outros seres vivos, mas aqui é só tocado ao de leve por um personagem tresloucado: obviamente, um professor erudito que ao tomar conhecimento do motivo por detrás dos Kaiju, aceita a morte da raça humana como uma sucessão natural da ordem das coisas, e se submete fanaticamente aos seus novos mestres. Faz parte de um subplot de Flick e é puramente enredo, muito pouco dramático.

Um problema com esse elemento é que infelizmente, desses novos mestres, esses masterminds do caos e da manipulação que estão a atacar o nosso mundo, não só não se sabe nada, como não se explora nada. Manter o leitor na dúvida e ignorância é bom quando se destaca uma emoção ou símbolo que possa identificar esse objeto que desconhecemos, mas que na representação tem um significado que transcende palavras. O mal será sempre o mal, e não precisamos de escutar Darth Vader para perceber pela sua postura qual é a sua intenção…infelizmente aqui, nem um retrato sórdido do inimigo nos ajuda a captar uma emoção, um carisma. São vagos, como o filme.

*E por fim, que mais pode haver de bom no enredo?

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About ossosborea

Como nunca estive legalmente empregado, não posso dizer que estou a um passo do desemprego, mas só com o tempo livre presumido de alguém nesse estado poderia criar este espaço. Bem-vindos e demorem-se, espero que...

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