Pacific Rim – crítica ao argumento

Ao menos os diálogos funcionam, sem caírem demasiado no embaraçoso e deliberadamente expositivo. Lá apelam a um dramatismo forçado, e não deixam de incluir um certo, heroísmo, mas não perturbam demasiado num objeto já de si fabril.

Agora, um problema que é notoriamente grave na leitura deste argumento, e que não parte propriamente da falta de trabalho ou má qualidade do filme, está na formatação deste. Reparem que Travis Beacham, o argumentista, é um bom escritor, sabe caracterizar personagens, sabe organizar cenas, as suas sequências estão estruturadas, sabe mesmo como controlar o drama e ação, mas o que não sabe é encadear as chamadas set-pieces de modo a não se tornarem aborrecidas. Usando meramente a descrição de ação épica, que já de si não é nada surpreendente, sem sequer se preocupar com o encadeamento dramático destas, torna a leitura algo aborrecida. Não deixas de virar a página apenas porque queres comprovar se este argumento vai mesmo seguir o caminho previsível que temias.

Lá está, Beacham conhece a fórmula, conhece as técnicas para provocar uma reação no leitor e para tornar as ações dos personagens justificadas, mas não basta a história ser demasiado clássica, afeta a ação por não a procurar trabalhar com alguma originalidade e por não saber escrever para argumento com a chamada técnica de aproveitamento de “preto e branco”. Parágrafos longos e monótonos não são aceitáveis em escrita de ação. Isso é um facto nos dias de hoje. Espero que Del Toro tenha ultrapassado o aborrecimento da leitura e visto o potencial para conflitos estonteantes nas sequências descritas.

Sequências essas que devo dizer, fora a carga final do Jaeger principal contra o portal do Anteverse, e a batalha traumática que matou o irmão de Raleigh e uma batalha no fim do segundo ato, infelizmente não há nada de realmente espetacular nas sequências de ação descritas. Pena, porque o filme merecia ação nunca antes vista e não a oferece, não conseguindo suplantar no papel o apelo dos épicos de fato de borracha e cidades maquete da Toho.

Visualmente será, então, épico, mas passageiro. Devo dizer que para alguém que está familiarizado com cenários explosivos de videojogos e aventuras épicas de animes, até literatura, ainda não consegui encontrar neste argumento um mínimo elemento de espetáculo que se comprove original ou impressionante. Não vai para além do que já foi alcançado noutros meios e isso parece ser justificação para não tentarem.

Del Toro, o mundo está cheio de cidades que já foram espalmadas por monstros gigantes, e quando ditas cidades são convenientemente evacuadas de habitantes, então o nível do conflito desce. Sim porque apesar de sofrermos pelos personagens, não sentimos a ameaça abater-se sobre o planeta Terra, e essa é a base da missão dos protagonistas. Ora, se fora três momentos (flashback, ataque em Buenos Aires e o combate climático) não há uma sensação de perigo para a humanidade, só para os protagonistas que, num filme comercial, nunca poderão sofrer verdadeiramente, então não só não há drama vivo, como não há envolvimento do público.

O que Cloverfield fez bem, das poucas coisas, foi envolver a população no ataque ao monstro. Aqui só vemos isso duas vezes e isso não é o suficiente.

Reprovado em aspeto visual por não aspirar a surpreender. Aprovado por mostrar conhecimento do género. É ambíguo, eu sei, mas assim sempre o é com a leitura de argumentos. Apesar de a escrita ser uma arte, a análise desta não o é, visto o argumento ser um produto transitivo e fácil de ganhar nova interpretação quando filmado.

Continuemos para finalizar isto de uma vez, porque estou com vontade de ir ver Godzilla Final Wars…

Há claro apelo comercial neste filme, principalmente porque não só mistura géneros, como açambarca várias culturas e logo assim, no pensamento formatado dos diretores de estúdios, deve garantir sucesso. Este filme nunca seria feito se não houvesse crença que o argumento atrairia audiências e ação fácil, espetáculo exagerado, emoções extremas, romance barato e virtudes meta-humanas é o que não falta. Só a fala “Today we are cancelling the Apocalypse” deve ser o suficiente para deixar todos os adolescentes de calças molhadas. Esperemos que não seja só esse o público ao qual este filme se dirija, mas pelo que o argumento dá a entender, não estão a apostar em classes adultas que gostem de questionar as motivações dos personagens ou a lógica dramática dos seus blockbusters.

Ainda se recordam de Jaws? Foi o primeiro blockbuster e cá me parece, até tem um bom argumento. Isto é o que surge 40 anos depois, uma aventura de alma penada e adereços reutilizados.

Em bom jeito de conclusão, não digo que o filme não melhore com a virtude do realizador, mas o que aqui temos é muito menos do que merecido, é uma aventura preguiçosa sobre um universo fotocopiado e robots gigantes contra monstros é exatamente isso que vos veio à cabeça agora. Se querem ir ao cinema para verem o esperado, este é o argumento que merecem.

Filipe Santos

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Como nunca estive legalmente empregado, não posso dizer que estou a um passo do desemprego, mas só com o tempo livre presumido de alguém nesse estado poderia criar este espaço. Bem-vindos e demorem-se, espero que...

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