Desafio Total e O Legado de Bourne formam o reino do entretenimento ligeiro

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Já o Legado de Bourne é outra questão, uma história ainda mais simples, mas devota a uma viagem mais visceral, verdadeiramente pessoal, não confiante em arquétipos e meta-humanidades descaradas, mas sim um defensor do thriller de ação pessoal mais corajoso que prévias entregas. Não é um filme de fantasia e heróis virtuosos, antes um filme heroico porque escolhe contar uma história real num género barato. Nada de novo, apenas de louvar quando bem feito e temos que admitir que, fora um ou outro percalço dos efeitos especiais, o filme está bastante bem feito.

Mas atenção, só continuem a ler esta crítica se o vosso interesse na saga ou no género em geral passar fortemente mais pelo personagem do que pelo puro espetáculo.

A franqueza da história em lidar com sombras, com legados, é que a torna não única e original, mas distinta. Talvez seja o filme mais dificilmente digerível de toda a saga porque possui uma estrutura trabalhosa, que salta da busca existencial ao thriller de ação e perseguição buddy, sem nunca assentar bem os pés na terra quanto ao género, mas não deixa de valer mais por ter a coragem de assumir a tocha do legado sem se prender aos parâmetros dos filmes anteriores.

Só porque o filme é difícil, não quer dizer que a história em si o seja. Temos aqui uma obra coesa e mais profunda que as entregas anteriores desde Identidade. Aaron Cross é um agente da Outcome, um protocolo suportado por uma companhia farmacêutica e o governo dos EUA, que se encontra de castigo no Alaska, e que na consequência das ações de Jason Bourne cai na mira de um grupo governamental que quer eliminar todas e quaisquer ligações com as operações clandestinas do governo – o uso de agentes secretos especiais com propósitos corruptos e de alterarem o balanço político e económico do mundo moderno.

Como ter que lidar com as consequências do “irmão mais velho” deveria ser a legenda do filme Cross, um agente já por si contestatário e individualista, é atirado para esta situação de perseguição coincidindo com Ultimato e obrigado a sobreviver a uma perseguição dolorosa tudo por culpa do “irmão mais velho”. Enquanto Bourne se dedica a expor Treadstone e Blackbriar, Cross, um agente dependente de avanços físicos e mentais por uso de químicos/drogas, necessita da ajuda de Martha Shearing (Rachel Weisz), uma cientista da Outcome que também caiu na mira do plano de eliminações, para se manter ativo e eficaz. Se ele deixar de tomar as drogas, não só perde o controlo motor e corre o risco de ficar catatónico, como perde a identidade desta figura heroica e autossuficiente com a qual se habituou a viver – há particular melancolia na revelação de Cross de que tinha sido selecionado como um soldado inteligente apenas por um erro de burocracia, o ter se tornado um agente especial, ajudou-o a escapar da mediocridade que era a sua vida.

É uma história simples de autodescoberta e decisão, de dois personagens que pensavam ter alcançado um propósito com estas suas funções patriotas a darem por si traídos e abandonados, e forçados a cortarem os laços com os seus “papás” destruidores. Não é original, mas é cuidado e tornado firme por um argumentista experiente que pode não estar aqui dotado da sua maior perícia, mas mesmo assim faz um trabalho de confiança. Um pouco mais cuidado em expor a causa de ação dos vilões com maior claridade iria alcançar um público mais abrangente, mas Gilroy escolhe banhar o filme com um complexo de subterfúgio que o torna mais verídico.

Parabéns no entanto ao conseguir colocar o busílis de uma história tão simples na força de personagens redondos. Um quer pertencer, a outra quer ter coragem de enfrentar o inimigo, seja patronato, seja assassinos em sua casa, seja a polícia à sua procura. É muito mais simples que os outros filmes simplesmente porque não presume expor conspirações profundas por detrás de uma estrutura básica de ação, nunca tenta ser mais do que é, uma viagem pessoal para os protagonistas se livrarem do controlo de outros.

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About ossosborea

Como nunca estive legalmente empregado, não posso dizer que estou a um passo do desemprego, mas só com o tempo livre presumido de alguém nesse estado poderia criar este espaço. Bem-vindos e demorem-se, espero que...

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