Desafio Total e O Legado de Bourne formam o reino do entretenimento ligeiro

Parte tudo de Cross no início do filme e regressa a ele no fim, prometendo que a saga tem um novo comandante, mas enquanto que Bourne escapava depois de ter terminado a sua vingança, Cross recusa o legado de Bourne, virando as costas à guerra aberta com os grupos controladores que engenham os seus destinos e simplesmente procurando a liberdade.

E nessa procura Renner carrega o filme tremendamente bem. É um protagonista mais humano, mais necessitado de compreensão e falível que Bourne. Ele é realmente o herói trágico, não porque alguém lhe matou a namorada, ou a mãe ou o cão, mas porque sem a Outcome, Cross não tem significado, e é isso que ele está a procurar fazer, escapar às amarras que escolheu, para ter um significado, longe da sombra de Bourne.

Se há um problema concreto neste filme está nos secundários e o serem exatamente demasiado secundários, quase que facilmente esquecíveis a certos momentos do filme em que estamos mais preocupados em ver como Cross e Shearing crescem com a força de um e do outro.

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Mesmo assim, Byer (Norton) e Turso (Keach), como os responsáveis pela eliminação dos nossos heróis, estão carregados de uma determinação vilã que pode não ser tão corrupta quanto Cox ou Strathairn nos filmes anteriores, mas que se implanta na nossa memória. Keach como o almirante experiente e geralmente encarregado de assegurar que estas tarefas são levadas a bom porto, com demasiadas cicatrizes para escapar do lodo do jogo de sombras do governo Americano e virar as costas à sua missão. E Norton como um general retirado, um operativo dedicado patrioticamente a cumprir o dever, custe o que custar. Juntos fazem uma dupla a respeitar porque não tem motivos egoístas mas de obrigação. Norton destaca-se mesmo por não ser um vilão congeminador, mas humano, um simples especialista que sabe colocar as suas emoções de lado para garantir o bem da nação, mas nós felizmente vemos o quanto isso lhe custa, estando essa sensação ambígua de sofrimento, presente em todas as vezes que Cross se evade entre os seus dedos. Não percebemos se quer mesmo deter Cross, ou se algo no seu amago o quer deixar escapar, e isso, senhoras e senhores e antidiluvianos, é o que torna um personagem redondo, a humanidade. Como com qualquer bom vilão, acabamos por ficar de pé atrás quanto a odiá-lo ou respeitá-lo.

A única fraqueza evidente do filme, que não é um filme de ação, mas um thriller de ação, é o não satisfazer as expetativas do público no que toca à diversão e por isso corre o risco de alienar parte da audiência. Isto não só porque está a apresentar um conto paralelo ao de Ultimato sem ajudar o público que não conheça a saga a entrar neste universo, mas porque o faz com um estilo tão desligado das exigências do espetáculo hollywoodesco. Aqui não há coreografias belas, acrobacias perfeitamente enquadradas ou o uso da câmara como pov frenético do público. Como dissemos acima, as expetativas não são cumpridas, esta não é uma cópia barata dos filmes de Greengrass, mas um objeto individual. O que temos visualmente sim é um exemplo mais cru e frio que qualquer um dos outros filmes e isto parte do estilo sereno, contemplativo de Gilroy. Torna-se um objeto híbrido entre o thriller intelectual e a ação traumática de “Os Três Dias do Condor”, nada fogo-de-artifício, totalmente pessoal.

Mas destaquemos que o bailado de motas que envolve Cross com o LARX 3, um inimigo sem nome, um agente de outra versão de um destes programas ao serviço do inimigo chamado para o deter, na reta final do filme, é uma lufada de ar fresco. É original, bem encadeado e apesar de não ser a sequência mais estonteante que já viram, destaca-se porque é das mais originais e não cede à necessidade de forçar herói e “vilão” a andarem às turras um pelo outro como se fosse o nível final de Streets of Rage.

A porta fica aberta, para o futuro, quanto a outras aventuras que poderão surgir, mas por enquanto, Bourne fica em boas mãos, mãos que não escolheram carregar o legado, mas que tal como todos os bons heróis humanos, tem a escolha de o fazer, agora a resposta a essa escolha depende de vocês quererem ver as vossas expetativas satisfeitas ou não. Já vos avisámos, este filme não as satisfaz, mas se estiverem dispostos a ultrapassar isso, pode ser que acabem por pedir que Cross regresse.

 Filipe Santos

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Como nunca estive legalmente empregado, não posso dizer que estou a um passo do desemprego, mas só com o tempo livre presumido de alguém nesse estado poderia criar este espaço. Bem-vindos e demorem-se, espero que...

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