Archive | Agosto 2012

The Expendables 2 – Os Mercenários 2

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Claro que é mau, mas nunca tentou ser bom.

Todos os envolvidos já ultrapassaram o seu auge, se é que alguma vez o tiveram (Simon West, o realizador, é o pior da equipa reunida).

Mas o objectivo é apresentar uma formula gasta revestida como uma homenagem, aceno respeitoso, e candidatura de emprego de uma série de estrelas reformadas. Destaque vai para Jean Claude Van Damme que no papel do infame Jean Villain, apresenta uma presença em ecrã magnética, um tipo de vilanice que seduz pela entrega total à descrença da humanidade, quase vaudevilliana no seu completo desrespeito pelas morais humanas, e apesar de tudo, uma crença na ordem antiga das coisas. Na ordem maniqueísta das coisas, a ordem dos anos 80, preto e branco, heróis e vilões, USA vs SU. De todos os presentes, fora Stallone, Van Damme é o que leva o filme mais a sério.

A história parte da procura de Stallone de evitar trazer gente nova para este estilo de vida, mas ter que aceitar que está a ficar demasiado velho para o trabalho que faz. Quando Church (Willis), o obriga a obter um mapa perdido que nas mãos da pessoa errada pode alterar o balanço do mundo, Barney e os seus mercenários caem na mira de Villain. Claro que mesmo depois de obter o que pretendia dos mercenários, Villain teria que matar um deles, para impor respeito, como o personagem gosta muito de aludir. É na verdade, um tradicionalista que, tal como muitos dos reunidos, não consegue aceitar que a sua escola de trabalho e pensamento está obsoleta, e mata um dos membros da equipa (spoiler: logo o mais novo). Obviamente que os mercenários teriam que iniciar um percurso de vingança pela Europa do Leste para encontrarem e destruir Villain. Ou como Barney tão bem o coloca “Acabar” com ele.

É do mais prosaico que se pode pedir, mas num filme que nos entrega Chuck Norris como um mercenário lobo solitário que surge sempre nos piores momentos para salvar a equipa de apuros, em que o vilão sabe fazer os split kicks mais letais do planeta, em que Schwarzenegger nos pode torturar com as repetições infindáveis das suas falas clássicas, e a ação nunca coloca a equipa verdadeiramente em perigo e os inimigos caem que nem tordos, e no fim todos e mais alguns reunem-se para fazer frente ao malevolo Villain num tiroteio ridículo e que seria apenas superado por um nível climático de Call of Duty, o que é que esperavam?

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Death Wish já …

Death Wish já não tem lugar em Portugal e os ideais já não têm lugar no mundo.

A história de um vigilante que não sabia ler, como qualquer idealista. O que é que isto diz da minha infância, o que é que isto diz da confiança dos nossos pais para o futuro? Apenas que estávamos errados, depositámos confianças num extremista cego, mas que no nosso medo, na necessidade de encontrar um substituto, deixámos um buraco vazio, negro, que ameaça sugar a sociedade para um lugar muito inóspito: a inércia.

Enquanto escrevo esta pequena crónica, tenho de momento dois gatos a competir pelo domínio da minha sala de estar. Um, velho acomodado de 9 anos, terreno e cansado, já se habituou aos meandros da casa e em ser satisfeito. O outro, um jovem de 5 meses, rebelde e esfomeado de sensações e emoções, disposto a tudo para conhecer o mundo que o espera e sem tolerar que ninguém lhe impeça de se divertir. Ambos tem medo um do outro, ambos tem medo de verem os bens que tomam por garantidos retirados. Digamos que um destes gatos rouba a atenção do dono só para si e retribui com uma unhada bem funda? Haverá o direito, para algum deles, em procurar retribuição em nome de outrem, neste caso o dono, eu o palhaço que escreve esta pequena crónica? No fundo não passaria de uma procura de retribuição por um ataque impessoal. Sim haveria perda para um deles, mas possivelmente a sua vida seria muito mais produtiva se não dedicar o resto dos seus dias a lamuriar e congeminar métodos de vingança.

Paul Kersey não contemplou bem essa realização, seguiu o caminho exatamente oposto ao que Brian Garfield defendeu no seu livro, Death Wish, 1972. Ele não advogou comportamentos de vigilante, condenou-os como uma medida extrema e egoísta, desesperada para uma geração que não aceita as consequências de infraestruturas que criou. Ora o filme, adaptação para cinema que eu infelizmente conheci sem ordem cronológica, e de cujo original ainda sou forte defensor, estreou em 1974 com Bronson a encabeçar as frustrações de uma sociedade emparedada por um crescimento criminal estrondoso, uma América à procura de uma solução que se revelou conservadora e espalhou-se para o resto do mundo.

Se o original promulgava um punho de ferro em relação ao controlo social e à esperança para o futuro, as sequelas vieram atear as chamas com os balaustres tão habituais de mais explosões, mais violência, mais mauzões para punir. A América e o mundo sentia-se completamente justificado em perseguir e castigar os males que atormentavam a sociedade, esquecendo-se por completo que falta de planeamento urbano, hierarquias municipais corruptas, distribuição de droga assegurada por campanhas políticas e acima de tudo a segregação social. Era o apogeu do manifesto capitalista que se socorria de causas sociais para criar os seus próprios defensores, esmagando o povinho sem meios que teria a audácia de protestar: quando falo de “povinho”, não falo somente de classe baixa ou minorias, falo de todos os que pudessem falar por si próprios, os que se benziam por ter dois dedos de testa, arma suficiente para apontar às classes governantes.

E como podia eu amar uma saga tão assumidamente conservadora e de direita? Repare-se que a minha partição política é muito ténue, fruto de uma infância pobre em acompanhamentos políticos e fraca vontade pessoal da minha parte. A identificação pessoal com ideologias permite-me estar mais próximo da esquerda, mas todos sabemos que fascismo floresce em qualquer hemisfério. Eu amava esta saga, e ainda amo pela sua coragem e assumida bravura em defender um ideal. Porque passou na televisão. Porque Bronson sabe carregar qualquer cena. Porque o herói continuava a vingar contra o maior vilão possível, nestes casos os criminosos, a meu ver os “maus”, na psique geral, o desconhecido. Eu conhecia um ideal, e julguei-o certo. Com o tempo cresci. Bronson não, mas o mundo à sua volta sim.

Lembras-te de “O Fogo e O Gelo”?

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Marcou os últimos dias de um género que nunca atingiu o auge.

Eu lembro-me, o público talvez, o universo de nerds (que é bem bom já agora!) tem vezes, (quando está de bom humor, ou naquela tendência crescente, destrutivo), mas Fire & Ice será dos filmes de fantasia para adultos o mais completo não só da sua geração, mas da história do cinema.

Um salto na animação com a técnica fnagagaraegraganranlgarelgramekrgmaç, foi completamente ignorado pelas audiências na sua estreia em 1983, não só catalogado por ser mais uma aventura de fantasia, um género sufocado na altura com exemplos menores, como foi uma década mortal para a animação e não seguia as linhas convencionais da animação nem apresentava a mística táctil do stop-motion. Para mim, na minha infância, era tudo. O centro do meu universo, a minha apresentação à animação como um portal para todas as histórias, o potencial de retratar qualquer possibilidade e circunstância sem refreio. Não havia quebras no ritmo, falhas no contato humano, má representação por parte do vilão. Peculiar num caso em que filmagens convencionais foram utilizadas para basear a animação do filme. Bakshi dava provas de um talento como realizador que ir para lá de uma tecnologia considerada secundária.

Bakshi venerava a arte de Frank Frazetta, o imperador da pintura na arte fantástica, pioneiro de todo um género, e necessitava de expandir a sua veia criativa. Escolheu a simplicidade, uma história barroca apoiada por argumentistas com experiência na saga de Conan para a Bd. Bakshi precisava de se afastar das suas tentativas falhadas de explorar o género da animação com vertentes experimentais, Wizards, ou assumidamente comerciais, The Lord Of The Rings. Procurava um filme que idealmente, materializasse o desejo dos fãs de verem retratado um género até agora captado apenas na dimensão literária e, infelizmente, caracterizado por tendências (fora o inimitável Dragonslayer, o último grande filme legítimo da Disney, 1981) infantis.

Voltou a falhar. O público não estava atento, fantasia não tinha heróis falhados e sangue estava reservado para os filmes de Sean S. Cunningham ou os estudos de violência de Bronson, Norris e companhia. Ninguém quis saber. Qual era o público pretendido? Idealmente, todos. Mas crianças não o conheceram e adultos descredibilizaram-no como um retrato pirateado do bárbaro cimério.

Mas não para mim, não para nós os que se recordam e que décadas mais tarde o conseguem citar e defendem o mérito do original enquanto desejam, em subterfúgio, o regresso ao universo, seja com remake, sequela, ou por interpretação amadora.

A fome de um fã nunca será satisfeita. Sonhamos com os espaços para lá do horizonte nos cenários pintados pela equipa de Bakshi. Questionamo-nos o que estará por trás da amargura que Larn sente por ver o seu irmão abandonar o cerco lançado por Nekron. Queremos perceber como o Rei Harold conquistou os Dragon-Hawks e como raio é que Bakshi e o seu grupo de criadores conseguiu pegar nas propostas e pragmatismos de um universo claramente prosaico, do mais básico e assustadoramente clássico na fantasia, e captá-lo com perfeito realismo.

Quatro anos mais tarde, Willow estrearia no grande ecrã e representaria apenas um décimo da agressão e total entrega em representar a fantasia como um género sustentável pela nossa realidade.

Fire & Ice, ou como o meu tio muito se orgulhava de nomear, O FOGO E O GELO, deixou um puto cabeçudo de olhos lacrimejados muitas vezes em fins de tarde quando não tinha coragem de espreitar a luz do sol. Era uma passagem, o chamamento de um voo, para terras que não surgiam no papel ou se baseavam no traço de linhas de carvão e recheios de guache. Era real e estava à distância de um controlo remoto. O que mudou entretanto? Esqueceu-se, pela intrusão de estruturas controladas e o vício das audiências em controlar os passos do herói, foi abandonado quando se entregou as chaves do reino aos grandes estúdios. A animação tinha escapado das manhas infantis, para ter um lugar ao sol que poucos se deram ao trabalho de reconhecer, e em breve, regressou ao calabouço erguido pela Disney.

A 4mil quilómetros de distância, a juventude japonesa tomava a maturidade da animação por adquirida.

Fire & Ice é uma obra de arte esquecida e não se prevê alguma vez o seu lugar ao sol, não enquanto se sacrificarem personagens em nome de universos, e os ídolos serem restritos àquele corpo de imagens que tem que acompanhar a juventude: céus plácidos, três luas, olhos esbugalhados e castelos de torres brilhantes onde os heróis tem direito a apenas um defeito moral.

Não há esperança para o futuro na animação ocidental, por isso espero daqui a trinta anos, ser apontado como errado. Senão, carrego no play e volto às planícies do Sul e às escarpas geladas de Ice Peak.

Filipe Santos

O Cavaleiro Das Trevas Renasce

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Desencoraja pretendentes ao título do Cavaleiro das Trevas em iterações futuras. Christopher Nolan terminou a saga com o melhor filme da trilogia, um lançamento que tem gerado a discórdia por tantas causas, talvez a mais relevante seja o tratamento da temática.

Não se preocupem os mais liberais ou os conservadores, Nolan não escolheu lados e se leram em algum lado que assim fora, lamento dizer-vos mas na opinião modesta deste jovem crítico, estão errados.

Mas passemos ao busílis da questão e já regressamos ao destemido assunto da temática…sim, vamos comparar este com todos os outros e asseguro-vos, Ledger foi superado, mas estamos a falar de regimes de gosto no que toca à aceitação das interpretações.

“O Cavaleiro das Trevas Renasce” tem vários problemas, mais do que merecia, mas conclui uma trilogia que já desde sempre manteve fraquezas facilmente superáveis pelas suas qualidades épicas, um dramatismo convincente para um universo irreal e temáticas e verosimilhanças ao nosso mundo inegáveis. Aquilo que fora criticado na primeira tentativa de Nolan, a captação de Batman como um super-herói que não é mais que um vigilante armado com uma carteira mais funda que o saco do pai natal, capaz de sofrer, de ver as costelas partidas, de temer as mordidas de cães esfomeados, foi mais do que cimentado nesta conclusão: o realismo é essencial.

Repare-se que quando falo de realismo num filme de super-heróis, estou a falar neste caso de maturidade no tratamento estético, dramático e de dramaturgia. Agora, lapsos de lógica abundam em todos os elementos que compõem o filme, mas não se preocupem, porque não em maior número que anteriormente.

Vou evitar revelar mais do que devia, mas preparem-se, porque não posso e não devo falar das qualidades de um filme sem referir, quando necessitar, alguns elementos do enredo.

O que já devem saber e foi assegurado pelos trailers, é que o Batman está reformado. Bruce Wayne leva uma existência reclusa, atormentado pela morte de Rachel Dawes, a mulher que segundo ele lhe fora destinada e de cujo fim julga ter alguma responsabilidade. Com o surgimento de uma ameaça misteriosa, um grupo terrorista fundamentalista de aspirações anárquicas liderados pelo implacável mercenário Bane (interpretado com uma destreza e fome de glória invejável, por parte de Tom Hardy), Batman precisa de regressar a uma cidade que se habituou a viver sem crime. Entre superar as expetativas do povo, redimir a sua imagem, salvar a cidade ou até entregar-se ao suicídio, várias são as motivações que assombram o cavaleiro das trevas mas eventualmente, através de uma relação sórdida de trabalho com uma ardilosa ladra, Bruce Wayne e o seu alter-ego encontram-se perdidos no aperto esmagador de Bane. Este quer mais do que isolar Gotham do mundo e ajudá-la a crescer face a uma crise social, quer julgá-la pelos seus pecados, sem opção de redenção. Batman não tem hipótese de fazer frente a um inimigo deste quando se predispõe a morrer e esse, meus caros leitores, é o fator que torna o filme de Nolan tão distinto: a predisposição do herói em morrer. A maturidade do super-herói foi muitas vezes anunciada e saboreada, mas não tão abertamente assumida.

De facto, num filme tão disperso em termos de plots e motivações, há que louvar que pela primeira vez, Nolan, Goyer e o outro Nolan, Jonathan, conseguiram depurar, num argumento que como os outros é desnivelado, a perfeita carga emocional. Percebemos sempre o que motiva Batman e aceitámos essas razões como válidas. Vemo-lo pela primeira vez como um indivíduo cujas ações estão completamente fundamentadas pelas suas necessidades emocionais.

Bruce Wayne, mais que Batman até, precisa de encontrar um propósito, acreditando que já não tem lugar onde possa pertencer desde a sua perda. Vivendo como um recluso, um perfeito egoísta viciado em lamber as próprias feridas, não só o seu corpo está danificado por anos de prestação ao serviço público de desancar e ser desancado por criminosos, como a sua mente está fragilizada por uma completa falta de esperança em si próprio, de acreditar na felicidade. Alfred aponta bem, à falta de companheira a agradar ou mal maior a superar, Wayne quer apenas encontrar uma causa justificativa para morrer. Egoísta como qualquer órfão endinheirado, parece já ter superado a necessidade de impor justiça e tudo o que pretende agora, a voltar a colocar o manto do morcego, é ter uma morte justificada. Percebem o quão patológico é o comportamento do vigilante? Traumatizado pela perda, acredita que só na sua expressão absoluta, a morte, se entregará à felicidade. Para Wayne não há qualquer razão para atingir a felicidade, não há crença de que Gotham realmente precise dele. É tudo manifesta ilusão que usa para se motivar a agir mas que, como um bom filme, será contornada e aplicada a melhor uso, como motivação para fazer o bem e eventualmente (VEM AÍ OS SPOILERS) dar a sua vida pela comunidade.

A vinda de Bane, mais que de Joker, é um choque. Se Joker coloca em questão as consequências das ações de polos institucionais, Bane invoca o completo abandono da sociedade capitalista: coloca em primeiro plano a corrupção e a inerente consequência do apodrecimento de uma sociedade por dentro, no seu centro, quando é deixada ao cuidado de si própria. Nesse aspeto, Nolan e colegas pedem-nos que sonhemos, que possamos apresentar nós um modelo que permita a criação de um mundo que possa equilibrar a ordem pública não através da autoridade de órgãos geridos por indivíduos semelhantes, mas sim através de uma instituição, um símbolo superior, seja Batman ou a polícia de Gotham, sem corromper a virtude do seu propósito: manter a justiça.

Nunca se obtêm a resposta certa e apercebemo-nos que Nolan não estava à procura desta. No fim, com o seu argumento encavacado e multiplicidade de plots, há uma ideia coerente que conseguiu despontar da ausência de lógica ou sufoque criado por múltiplas personagens secundárias relevantes: o sacrifício é a palavra de ordem. Batman terá que se dar todo, e como Kyle aponta ele já deu o suficiente a Gotham…mas deu mesmo?

Claro que o crítico não pode deixar de reconhecer que a estrutura pedia um maior cuidado, o que implicaria possivelmente uma completa restruturação, na gerência das diferentes tramas e em atribuir mais peso a desenvolvimentos dramáticos como a sequência em que Batman é derrotado e submetido a um processo de retorno, de renascimento, gerido pela paridade que mantêm com o declínio de Gotham. Aqui nunca se dá uma olhada muito profunda e chocante ao declínio de Gotham como metrópole da qual surgiria uma nova ordem social. Não é pedido, dado o propósito maquiavélico de Bane, que transcenda a mera revolução social. E é uma pena, porque o facto de que o plano de “fim do mundo” do vilão ser muito mais que uma causa maniqueísta. No fundo, o que Bane faz, faz por crença, dotado de alguma virtude desencaminhada.

Ora, tanto Kyle como a criminosa que procura uma segunda oportunidade na vida e John Blake, de Joseph Gordon-Levitt, o eterno crente na verdadeira justiça mas que cuja fé na instituição da polícia está cada vez mais abalada, são os pontos de vista da audiência, da sociedade, que muitos críticos apontaram como ausentes no filme. Nolan não tem nada de fascista, de anti-liberal, de condenador neste filme. Fez a escolha de apurar o ponto de vista da queda de uma sociedade através do olhar da instituição obrigada a protege-la e da renegada que a escolhe abandonar. Há um egoísmo nesta escolha, e a abordagem mais direta e clássica seria a de colocar um personagem secundário afincado numa classe trabalhadora, talvez explorar o personagem do jovem órfão que Blake protege, mas isso requeria um filme mais longo e quiçá, melhor. Um dos problemas é, realmente, a falta de confiança no público em aceitar um épico à boa maneira romântica.  

Acaba por correr o risco de desencantar pela simplicidade da estrutura principal, algo que requeria mais trabalho, mais esforço de criatividade, principalmente quando se sugere um universo tão fantástico como ver o desenrolar da existência de um povo sob o jugo cerrado de um supervilão. Velhos inimigos regressam, as sombras do passado atormentam Batman, mas o que está em destaque é a necessidade de dar o último passo para cumprir o dever humano: proteger aqueles que amamos. Para isso realmente, e os fãs da BD poderão ficar satisfeitos, está garantido que vemos a transformação do herói de um vigilante traumatizado com todas as boas intenções de construir da cidade o modelo perfeito de sociedade que o seu papá idealizava, ou seja um controlador obsessivo com traumas paternais, a evoluir para o verdadeiro arauto de Justiça que foi prometido no fim da série. O desafio colocado a Wayne e ao seu alter ego é o de abandonar a sua vida, o medo, a possível ruina, abandonar a consciência de um Batman e assumir a consciência de Gotham, e isto meus caros amigos, transcende Dickens e traz-nos de volta a Platão, que na sua República propõe a anulação da identidade como salvaguarda da ordem maior. No fim do filme, é pedido a Batman que cometa a decisão aparentemente mais marcante que pode assolar qualquer herói de banda-desenhada, um desafio tão clássico e batido que, pela sua eficácia, não deixa de ter o efeito certo. Mas mesmo depois de conquistado, a verdadeira vitória não está em salvar as vidas do povo, mas em ter dado o passo para o fazer.

E essa é a razão porque este é o melhor dos três filmes, porque nos leva ao ponto de partida e assegura pela primeira vez que o símbolo do justiceiro, do protetor, é um símbolo verdadeiro. A ideia viverá eternamente, não importa quem assuma o manto de Batman, este transcende o utilizador.

Agora, se por um lado foram necessários três filmes para concluir o crescimento de um personagem de vigilante a símbolo vivo, bastou um filme para cimentar um vilão como icónico. A destruição caótica e anarquismo juvenil de Joker satisfez as audiências, é certo, mas não passa de um retrato puramente superficial daquele que será o vilão mais bem retratado no historial de Batman: Hardy eleva Bane a um mérito que definirá uma carreira, tanto quanto Ledger fez com Joker e a sua fome de caos.

Mas enquanto que Joker se alimentava da necessidade de movimentar as peças em jogo para criar alguma cinética através da ilusão de mudança, a fome por violência, Bane nunca, mas nunca, alimenta o caos. Ele alimenta o desespero, inspirando o povo à retribuição, esse verbo tão assumidamente humano e desesperado, egoísta venha de onde vier quando se tem ainda muito a perder. O problema, meus caros, é que os cidadãos de Gotham, como nós aqui do outro lado do ecrã, já perdemos quase tudo, e perigoso será o modo como escolhemos aplicar essa liberdade que nos é entregue, a de ir buscar aos ricos aquilo que nos foi impedido de ter.

Metódico, profissional, sereno, é um vilão de respeito não por ter um plano perfeito que, mesmo que vaudevilliano na sua execução, impressiona no seu realismo, mas por apresentar algo que Joker sempre errou em demonstrar: crença.

Como Alfred aponta a Wayne, acautelando-o de que o seu tempo passou e deve abraçar outros caminhos para proteger a cidade, a crença é a matéria que move Bane. Faz dele o vilão mais romântico dos três filmes, um cruzamento entre o implacável determinismo de Joker e a descrença de Ras-Al’Ghul. Esqueçamos que é uma presença superior a Wayne como todos os grandes vilões se pede que sejam, física e intelectualmente, um tanque humano. Bane é mais que isso, é uma criatura que se alimenta de fé, de um propósito, e um comentário apropriado à malignes que os ideais podem assumir quando submetidos a uma causa pessoal. Poderia não ter face, que continuaria a aterrorizar com a sua voz, porque é a voz do realista.

Sim porque, como todos os grandes vilões, há sempre uma causa pessoal e humana e será bem compreendida numa revelação que, a meu ver, é a única fraqueza da sua história.

E sim, ele quebra literalmente o Cavaleiro das Trevas, mas pedia-se talvez um maior esforço dramático na representação daquela que seria a batalha mais icónica da década entre herói e vilão. Por outro lado, a batalha climática apesar de mais curta, quebrada por uma conclusão anti-climática e centrada num contexto caótico, é muito mais eficaz ao descrever a relação de puro desrespeito entre estes dois personagens. Crenças distinguem-se e os argumentos de ambas as partes são basicamente reunidos em cena: Batman, o idealista que está disposto a tudo para salvar a cidade e Bane, o neo-anarquista cuja total descrença na humanidade encontrou um propósito no amor.

Mas opostos, conflito de ideias, de classes sociais é a fundação e o Cavaleiro das Trevas: qual o momento das vidas de cada um que o poderão definir como o ser finito que é, o que te descreve como bom ou mau, como rico ou pobre, como merecedor ou maldito?

Há quem aponte Nolan como um fraco contador da sua própria versão de A Tale of Two Cities, visto mostrar aparentemente algum facciosismo em beneficiar a alta sociedade por oposição aos restantes membros da cidade, o povinho, os trabalhadores, os explorados, etc., enquanto Dickens mostrou exatidão em repartir as águas e mostrar-nos os dois lados de qualquer conflito, os medos e aspirações quer da aristocracia ou da turba enraivecida.

Não, leitor, Nolan não é defensor de posição nenhuma exceto a do humanitário. Fora as suas lealdades ideológicas ou políticas, O Cavaleiro das Trevas aborda a questão da crise entre classes sociais, se bem que com uma rudeza encavacada e preguiçosa, com honestidade imparcial. O filme tem que ser respeitado por brandir a oliveira da paz, afirmando que a única luta que merece ser lutada é a da cooperação e união entre os homens e o sacrifício surgirá apenas para salvar uma sociedade que mereça ser salva, a da igualdade.

Mas há muito mais que nos é apresentado ao longo desta viagem sem descanso. Não esperem momentos de grande adrenalina a toda a horas mas a tensão está bem medida e controlada, conforme testemunhamos a execução do plano implacável de Bane, e reparamos até, terminado o filme, o quão cimentado estavam certos desenvolvimentos que se possam ter julgado indevidos. Sim, o twist enfraquece a estrutura do filme sem uma justificação maior. A escolha de Nolan em reservar para o terceiro acto um revês que poderia realmente ter um significado dramático construtivo não é mais que um elemento de espanto e surpresa, sem impacto edificante.

Mas passemos às interpretações, cada actor representa o seu papel com uma exatidão notória, herói e vilões e secundários não podem ser criticados e Bane é, apesar de distante da sua notória interpretação na banda-desenhada, um símbolo de um vilão a seguir.

Mas Bale não se fica atrás com o controlo certo de fatores de tormento e assombração, um estatuto que parece conseguir manejar com prazer, tanto que a passagem para um estado de reivindicação e virtuosismo vigilante não se aceita tão facilmente quando finalmente, quebrado o limiar do sofrimento e ultrapassada a Crise do Herói. Assume os seus medos e fechando-se o círculo, atira-se de pés e cabeça, no personagem e na representação, para um papel destinado a cumprir: o de Batman.

Sim, Hathaway, Levitt, Caine e Freeman asseguram entregas de qualidade, com Cotillard a surpreender no terceiro ato que lhe é reservado, mas fora a entrega de qualidades de sidekick a Levitt e o papel de testemunho que quer ele, quer Hathaway partilham, não são mais do que o necessário: extremos da consciência de Wayne. Não se iludam, Hathaway cumpre um papel que desde sempre foi satélite ao da figura central que é Batman, ela é a ladra, a fome primitiva, a selvagem traquinas, faz de tudo para sobreviver e tem todos os talentos para ajudar. Oferece no entanto um pouco mais intensidade ao evidenciar a vontade de todos os criminosos, basicamente de todos os indivíduos, em começar de novo. Tal como Batman, inspirada por ele, coloca as suas necessidades em segundo plano quando o seu exemplo a ilumina, tal como a toda a cidade (sim, também literalmente).

Caine surpreende com uma entrega emocional que supera todas as outras, talvez por tristeza de abandonar um papel que sempre assumiu sem grande empenho, não que fosse requisitado da sua parte, a experiência e talento mais do que satisfazem as maiores da exigências. Mas mesmo assim, não se esperava uma dedicação tão verídica à tragédia que assombra o filme, quer pela narrativa, quer pela realização de que está a chegar ao fim a aventura. Palmas para Caine que sendo o mais velho dos participantes, consegue estar à altura dos trabalhos diversos sem sequer partilhar metade do tempo no ecrã.

E perguntam-se, ‘então e Levitt? Qual é o seu papel?’ Fechem os olhos os mais sensíveis ‘Temos Robin ou não?’ Sejamos sinceros, o que preferem? Querem partir para o filme completamente às cegas ou a vossa curiosidade é mais forte e dispõe-se a destruir qualquer expetativa de surpresa?

Não leiam o seguinte parágrafo se ao contrário do escritor desta crítica, conseguirem controlar a vossa curiosidade:

Levitt encontra-se neste filme para cumprir um papel dividido entre ele e Hathaway, o de testemunha, consciência e alavanca de apoio à compreensão do público. É basicamente o mesmo papel que tinha sido atribuído a Ellen Page em Inception – A Origem, mas com um pouco mais carne visto que o John Blake de Levitt é duas vezes mais ativo e determinante para a narrativa. No papel de um órfão que se dedicou ao trabalho de polícia para proteger as hostes puras e inocentes da cidade da corrupção venha de onde vier, Blake é um polícia dedicado e idealista, que pode não acreditar totalmente na eficácia do corpo policial, mas empenha-se cegamente aos mesmos ideais que este representa: justiça, igualdade, sacrifício. Os ideais que Batman representa. Ao longo do filme, o arco que vai percorrer não será propriamente de acompanhamento próximo das desventuras de Batman, servindo sim de sidekick hint hint em escassos momentos, mas mais ao serviço de Gordon do que o alter-ego mascarado de Wayne. Não, o arco de Levitt é o de apresentar aquilo que tantos críticos se lembram Nolan de acusar estar em falta e não se dedicam a esforçar para compreender que a voz, o olhar, as caras do povo, podem não estar representadas com todas as classes e adereços humanos, está presente sim em Blake. Ele ultrapassa o papel de símbolo crente de Justiça em estágios de evolução, Blake é a representação de uma geração moderna que não tendo valores substanciais nos quais possa confiar física e concretamente, se apoia no ideal que se tornou intemporal, anamnésico de certa forma. Blake pode ser um polícia em termos de vestimenta, mas o seu papel é o de olhos do povo, do espetador, na demonstração de um crescimento de estado de crente, de esperançoso, a membro ativo da sociedade. Tal como Blake faz a escolha no fim, talvez se requeira a esta sociedade presente, se é que estão à procura de alguma resposta extrema para o problema da divisão de classes, afastarem-se do modelo democrático e assumirem, e aqui vem novamente o hint, o manto do renegado.

Wally Pfister mostra um controlo cinematográfico que apenas melhora a presença em ecrã de cada um dos personagens e atribui ao filme a sua identidade própria: árdua, rugosa, enferrujada, árida. É um filme do caos, do sofrimento, do renascer das cinzas. Os tons gelados de Dark Knight ou o calor acobreado de Begins são postos de lado para a trilogia concluir com um retrato outonal, cor de terra, ideal da quebra das fundações, do terreno apto para se erguer novas instituições. É o filme do fim e do recomeço, e o último plano (fechem os olhos) assegura para a posteridade a hipótese de sequela com um Batman que será eterno. Os símbolos vivem, conquistando o medo e a morte.

E Nolan conquistou não só a posteridade cinematográfica com este, o seu mais espetacular filme, o híbrido mais perfeito que tem de drama com ação e aventura, como o medo do falhanço. Poucas são as sequelas que valem a pena, e mais raras ainda as conclusões de trilogias que conseguem derrotar o mérito dos dois filmes anteriores.

Só toda a sequência de rapto introdutória não só ultrapassa a abertura de O Cavaleiro das Trevas, mas todas as outras sequências de ação do filme – seja conflito aberto, luta de “exércitos” ou climáticos confrontos mano a mano entre herói e vilão – estão a, perdoem a tradução direta, milhas de distância em qualidade em relação à abordagem nua e sem adereços fantásticos do filme anterior. Aqui encontramos o maior aceno a Begins, além de elementos do enredo.

“O Cavaleiro das Trevas Renasce” conquista o público com uma interpretação corajosa de uma adaptação de banda-desenhada como um retrato maduro, conclusivo, de um percurso marcante. Bale surpreende com uma presença de ecrã superior à dos outros filmes e se a sua motivação cresce e se o valor do seu sacrifício é maior, pedia-se apenas que a privação a que é submetido e de onde despontará como guerreiro pronto a enfiar o seu mais perigoso inimigo de sempre, o terror vivo, fosse mais caustica. Fãs de bd irão criticar pelo impacto da “queda” do cavaleiro em relação à obra original.

Espero que percebam a minha dificuldade, a minha loucura ingénua em iniciar uma carreira como crítico tomando nas mãos como primeiro trabalho deste blog um filme que obviamente tem pano para mangas no que toca tanto a picuinhices como fundamentos gerais que possam ser apontados e dissertados sem fim.

Não tenham medo, caros leitores, não se pouparam esforços para vos fazer chorar, e fora imperfeições de argumento, aqui realmente o que conta é a alma por dentro da máscara, por dentro do filme.

Obrigado Christopher, por saberes terminar esta história, não com uma conquista sobre um super-vilão, mas com uma conquista sobre o maior inimigo da humanidade, o medo. O melhor filme da trilogia não é o melhor filme do ano, mas quem sabe se não será a melhor adaptação de bd de sempre e isso, é história.

 

Porque Neuromancer chega dez anos mais tarde

Porque a Internet já não é criticada…

(a colocar)

Adeus Vidal

(bibliografia é muito extensa…mas virá um dia)