Archive | Setembro 2012

Uma Fuga Perfeita

Deixem-me antes de mais esclarecer que Steve Zahn é um excelente actor. Estamos entendidos? Ok, seguindo em frente…

David Twohy regressou já há uns anos, antes de se lançar para a conclusão da sua trilogia Riddick recentemente, com esta homenagem ligeira e, deliciosamente divertida, a Hitchcock. Chamo-lhe Hitchcock por via de terapia para casais, uma nova tentativa de modernizar o thriller, um trabalho que estes anos, perdido entre a carga emocional dos falsos indies, os blockbusters formatados e as comédias sonâmbulas, se revela até, original na escolha de um formato quase esquecido: o thriller adulto, com protagonistas adultos, não direccionado a um público não pensante mas sim a apreciadores de cinema que o encaram como o veículo perfeito para arte-entretenimento.

Não estou a dizer que Uma Fuga Perfeita seja o filme perfeito de há três anos, longe disso. É apenas um filme esquecido, talvez ironicamente chega cá tarde demais, que vem trazer algum novo fôlego à remessa habitual de cinema produto, comercializado nos últimos vinte anos. O mesmo cinema de Hollywood que ignora heróis com idade superior a trinta anos, vilões assumidos, um público inteligente para lá dos maiores de 18 e uma trama que apesar de prestar juramento à estrutura clássica de oito sequências, não se prende na preguiça dos enredos supraexpositivos dos últimos anos. Um filme para adultos com consciência do género e abrangência sem insultar a inteligência do público. É uma lição de amantes de cinema sobre o cinema clássico, onde a representação conta tanto quanto a tensão emocional e as revelações carregadas de urgência, a tragédia sempre ao virar da esquina, mas acompanhada de mão dada com a possibilidade de um final feliz.

Aqui há um tema: o amor é tão destrutivo quanto salvador; mas não faz questão de guiar o público ao longo do enredo como se este se tratasse de uma criança de 5 anos. Antes regressa ao final da década de 1970, inícios de 1980, quando os últimos resquícios do cinema moderno, o cinema ambíguo e realista, ainda se poderiam encontrar no cinema de puro entretenimento. Lembram-se desses filmes, onde apesar da trama ser completamente previsível, conseguiam capturar a nossa atenção com um controlo perfeito da mise-en-scene e um ritmo dedicado à imagem-movimento como veículo de narrativa, o filme ao serviço da história, e não o contrário, aquilo que encontramos hoje em dia, infelizmente.

Para quem aprecia thrillers coesos, simples, e reforçados por personagens fortes, temas sinuosos e um jogo de reviravoltas conexo com a narrativa, então este é o vosso filme.

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Ruby Sparks

Há muito pouco a criticar sobre este filme, do ponto de vista do vosso crítico preferido, senão o por vezes ter a sensação clara de que o filme se apoia demasiado em convenções clássicas de Hollywood: a visita à casa da mãe para apresentar a namorada; o irmão/melhor amigo/confidente/ comic-relief; o encontro mirabolante entre o protagonista e o seu santo graal pouco depois do ponto de viragem dos 15 minutos iniciais; e toda uma outra série de coisas.

Ruby Sparks não é mais que uma versão mais apurada e, talvez por infelicidade nossa, clássica de A Vida Interior de Martin Frost.

Não deixa de ser um grande filme, e superior ao referido em todos os aspectos menos num que deveria contar, a meu ver, mais que todos: a originalidade. Daqui destaca-se apenas o final ambíguo e vagamente depressivo.

E que outra maneira há de trabalhar o amor quando se procura honestidade?

Os que procuram um objecto de cinema que não seja mais que uma dispendiosa declaração de amor entre o casal de protagonistas podem ir antes comprar o bilhete para ver Sempre A Abrir (criticado há umas semanas…não melhorou desde então e odeio aquele poster enganador). Não, Ruby Sparks é antes uma análise ficcional da qualidade destrutiva do amor, o egocentrismo como bandeira da procura de companheirismo, e fá-lo com uma exactidão arrepiante, desde os momentos em que Calvin (Paul Dano) se queixa da sua miséria solitária, ao seu formular de um exemplar feminino, a chamada Ruby Sparks (Zoe Casan), que atenda sempre e só às suas necessidades e caprichos, o desinteressar eventual por ela quando cai no conforto da relação, o controlo obsessivo da lealdade e vontade do par. Todos estes elementos podem ser picotados e enviados por correio azul para a ilha dos amargurados.

Em termos de honestidade e verosimilhança, por muito conduzido que esteja por classicismos, este é um filme exemplar sobre relacionamentos.

A história é simples, Calvin é um escritor de sucesso a passar por uma frase pouco criativa, sofrendo de falta de inspiração, e ao satisfazer um exercício do seu psicólogo descreve a companheira perfeita, alguém que o tem atormentado num sonho, a procura da sua musa, guia, a Vénus fantasma. Ao fazê-lo, acaba por criar, por tornar manifesta, essa pessoa, essa bela dona, a mulher dos seus sonhos, eterna liberal e hipster incondicional com problemas de sustentabilidade emocional, Ruby Sparks. A mulher perfeita é sempre aquela chama que se revela mais quente que todas e um dia queimará o idiota que se atreva a dançar com o fogo.

3, de Tom Tykwer

Imaginem as possibilidades de um mundo livre de dúvida, rancor, traição, ódio pessoal, medo, preconceito. O mundo onde não existe o termo “repressão social”. É utópico, digno apenas de ser visto por uma lupa quando projectado sob uma mesa de luz e vasculhado em todas as integrações dos seus corredores, caminhos e linhas e arestas confusas, típico de um elemento desconhecido e, improvável. Assim começa e termina o trabalho de Tykwer sobre a liberdade pessoal e a evolução do amor. De dois, passa para três, e de futuro, passaria para o mundo inteiro, não em jeito decadente de Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley, mas em jeito de felicidade comprovada.

Tykwer experimenta, neste filme soberbo, obra de um mestre, não pregar ou impor uma transformação social, mas propor claridade: podemos viver sem as amarras sexuais e relacionais da monogamia e não sucumbirmos à repressão moral?

Um casal de pessoas trendy e virados para a cultura e as artes estão a chegar ao marasmo relacional e cada um procura o refúgio da morte eventual da relação num terceiro elemento, um cientista bissexual incapaz de se apegar a alguém, sem conhecimento do outro. Esta relação a três trás felicidade a cada um dos envolvidos, mas poderá suster-se quando todos estiverem ao corrente das “traições” por que passam?

Desde o medo da morte, solidão, contagem do relógio biológico à simples procura de novas experiências sexuais alimentam o enredo, mas no fundo não temos mais aqui uma procura pela felicidade. Eu adorei o filme porque Tykwer, isto nem falando em toda a sua mestria técnica e visual, sendo talvez dos realizadores europeus dos que melhor se distingue por um atavismo cinematográfico que consegue trazer de volta a grande distinção do cinema alemão, a serenidade de uma imagem carregada de significados. Regressando ao meu pensamento inicial, adorei o filme por nunca negar o preconceito, a dor, mas antes abraçando esses elementos, porque não há crescimento sem dor. Num romance a três desprevenido, como é o romance entre os protagonistas, o amor é tão mais belo e poderoso quanto mais sórdido e deu-me uma grande vontade de rir cada vez que evidenciava um dos chamados momentos de traição de homem-mulher, homem-homem, durante a operação de um deles, durante horas tardias de trabalho, numa viagem de barco, entre outras tantas, por não deixar de captar a completa visceral brutalidade que mentes tacanhas poderão não aceitar como naturais e levar a peito.

Este é um filme honesto, e não fossem os actores protagonistas tão exemplares no seu trabalho, dispostos a tudo para mostrar o melhor e o pior da humanidade no que toca a relações, deixaríamos de aceitar o amor pelo aquilo que é, bem-estar e entrega, e passaríamos apenas a julgar com ressentimento esta completa nega da monogamia.

“Take Shelter”

Quando terminei Histórias de Caçadeira pela primeira vez, desejei no fundo que Jeff Nichols, que se mostrou notório nesse filme como um realizador que sabe gerir parcos recursos e oferecia uma realização bastante franca, mas não menos mágica, não parasse de trazer a sua visão para o cinema.

Não detinha um conhecimento profundo da vaga indie americana em meados da primeira década do século, mas movido pelo meu estudo tardio de John Cassavettes e as suas influências, vim parar a Nichols com bastante ingenuidade. Os dois não poderiam estar mais distantes um do outro em termos de estilo e temáticas, e ainda bem para mim.
A sua primeira obra conquistou-me como eu não esperava, com um universo nada ilusório, mas ainda sim transcendente, de conflitos quase tribais de famílias que habitavam na América pouco conhecida, a América que ainda tem magia, longe das metrópoles, onde o povo e a natureza estão de igual para igual. Aqui, costumes modestos, famílias avulsas, rixas em nome de sangue e honra e crucifixos, sejam de que quer ou formato, são a norma, e aceitei isso. Aceitei-o como um universo modesto mas igualmente fantástico que Nichols se mostrou expedito a trabalhar.

O meu receio quanto a Take Shelter, seria que a notória confiança no talento de Nichols o tornasse demasiado consciente da sua força. Medo que Michael Shannon fosse novamente o seu protagonista e deixasse as expetativas convertê-lo a uma atitude mais comodista e pragmática enquanto ator. Tinha medo que depois da explosão que foi o seu primeiro filme, se espalhasse por completo com a segunda entrega. O medo, a desconfiança, tomou conta de mim.

Não esperava verificar isto. É de louvar como Nichols conseguiu crescer enquanto realizador, sem trair o seu estilo, sem o tornar cansativo, e mesmo assim conseguindo num universo tão semelhante do working man’s american gothic apresentar uma história original, e tão tocante.

“Resident Evil: Retribuição”

O mal parece ter evadido uma fórmula vencedora que também já se tornou moribunda. Resident Evil nunca foi bom no cinema, o primeiro filme é divertido, caricato, uma imagem próxima do ideal Romero/mansão assombrada que os jogos originais procuravam retratar. As sequelas variam entre “lixo”, “plágio série B” ou “esgotamento nervoso em 3D”.

Infelizmente, estas obras nunca aspiraram a ser arte mas antes a partir de uma homenagem modesta para se tornarem um veículo de sucesso. Infelizmente, apesar de não ter sido o desejo de ninguém, o público acabou por não contestar o caminho que RES começou a tomar e passados quase uma década, é este o resultado: banalidade.

Silent Hill: Downpour

Eu gosto de me assustar. Sejam histórias de terror, filmes ou jogos, retiro um enorme prazer em aventurar-me no desconhecido, em sentir o desconforto de uma situação que me é estranha. Silent Hill foi, durante imenso tempo, o meu recurso virtual ao assustador e às experiências intensas. Hoje, infelizmente, não é mais que uma mera sombra do terror psicológico que um dia foi. E Apesar de Downpour ser um passo na direção correta, especialmente se compararmos com Homecoming, continua a não atingir o patamar de genialidade que a Team Silent conseguiu desenvolver durante a geração anterior.

Silent Hill: Downpour conta a história de Murphy Pendleton, um presidiário com um passado atormentado e violento que se prepara para ser transferido para outra prisão. Durante a viagem, a camioneta que o transportava sofre um acidente, deixando Murphy às portas da aterrorizante Silent Hill. Nada acontece por acaso e Murphy vê-se obrigado a enfrentar o seu passado enquanto tenta descobrir o que se passa em Silent Hill.

Jerichow

Chega tarde, a crítica a este filme nomeado para um Leão de Veneza, vencedor de um prémio de Melhor Filme pela crítica Alemã…vá-se lá saber porquê, tendo em conta que o facciosismo é uma tendência moribunda nos dias de hoje.

Finalmente quando me foi permitido assistir ao visionamento de Jerichow, sai do filme absolutamente dormente, não só por ter testemunhado um aparente remake da fórmula O Carteiro Toca Sempre Duas Vezes, trabalhado expeditamente em Hollywood e até pelo cinema italiano, com Visconti a brincar com seriedade com esta fórmula em Ossessione. Até agora, todas as adaptações desta história não foram menos que excelentes.

E depois temos Jerichow, a desbunda pela tragédia sem destino. Ao contrário dos exemplos da fórmula abordada, neste filme de Christian Petzold não há sequer uma preocupação com empatia ou justificação emocional do triângulo amoroso.

Não. Tudo o que encontrei foi esterilidade criada por maus hábitos. O cinema Europeu na sua pior manifestação: inútil.