Jerichow

A história apresentada é a de Thomas (Benno Fürmann), um veterano da guerra do Vietname que encontra trabalho na sua velha cidade de Jerichow, a conduzir para Ali (Hilmi Sözer), o dono de várias bancas de fast-food na região. Ao conhecer Laura (Nina Hoss), a mulher “comprada” de Ali, um turco emigrante nunca aceite na Alemanha, Thomas inicia um triângulo amoroso pelas costas do seu empregador, que o faz questionar a sua amizade, a sua honra, e a sua capacidade para matar a sangue-frio.

Não há heróis nem vilões em Jerichow, apenas uma abundância de egoísmo. Pena que tenha infetado os criadores do filme.

A grande falha deste projeto, um exemplo não de desconstrução do amor, obsessão e culpa, mas sim de perda de tempo, infelizmente, é que não há qualquer apego pelos protagonistas do filme, exceto pela infeliz “vítima”, Ali, o eterno desconsolado, dividido entre costumes chauvinistas e o seu amor sincero pela mulher que comprou a troco de lhe saldar as dívidas, e eternamente torturado por habitar um país que não o deseja. Este personagem é o único personagem legítimo dos protagonistas, mas é tão assumidamente enxovalhado para nos sentimentalizar, como modo de legitimar, mas que acabou por deixar aqui o Mastiga boquiaberto com o desespero de comprar as emoções do público num filme tão, vazio e infelizmente, aborrecido.

Há um esforço concentrado em representar o verídico, dos toques, da condução, das paisagens, do café, dos momentos na cama, da saudade, da traição, mas tudo o que encontramos é uma planificação sem inspiração e circunstâncias mecânicas, que tomam por garantido a interpretação do público de que, de facto, os personagens estão a agir de modo verídico. A abundância de momentos de silêncio e sossego não implica que a contemplação ou o realismo tome lugar. Implica neste caso, silêncio e sossego, que é tudo o que menos se passa na vida dos personagens.

Reconhece-se a tentativa, mas falhou profundamente, com Pertzhold a criar antes um objeto estanque, vazio, de percurso previsível que não chega a ser emocionalmente trágico, apenas moralmente, e isso não é uma mensagem é um retrato, meus amigos, mas que rouba o filme do potencial de se tornar muito mais, de realmente comunicar algo mais que “o egoísmo é destrutivo”, a mesma lengalenga já mais bem trabalhada pelos filmes que imita.

Tudo isto é lamentável pois a falta de ambição da realização, a preguiça do argumento e um conflito quase injustificado – nunca chegamos a perceber o que está na base do amor de Thomas e Laura – prejudicam ainda mais este projeto esgotado. Só a representação pode ser celebrada, e a tentativa de se captar o realismo dos movimentos, das ações, do perene ambiente encoberto até, que assola tanto a praia como as paisagens campestres mortiças. Mas tudo isto é feito não com base na necessidade de contar uma história, mas aparentemente com a necessidade de…ter algo que filmar, infelizmente.

Jerichow é um falhanço que toma um género e o seu público por garantido, e provavelmente será celebrado sem se ser questionado, o que torna tão mais trágico a recusa em explorar elementos temáticos importantes como a integração social e a crise financeira, ou o futuro dos retornados de guerra, em nome de movimento físico e pausas esgotantes. Um resultado lamentável para um filme que anuncia no título o nome da cidade onde se passa, e faz todo o esforço possível para evadir um tema, um simbolismo, de facto, uma história. Isto se por história se entenda um percurso narrativo com princípio, meio e fim.

Filipe Santos

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Como nunca estive legalmente empregado, não posso dizer que estou a um passo do desemprego, mas só com o tempo livre presumido de alguém nesse estado poderia criar este espaço. Bem-vindos e demorem-se, espero que...

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