3, de Tom Tykwer

Imaginem as possibilidades de um mundo livre de dúvida, rancor, traição, ódio pessoal, medo, preconceito. O mundo onde não existe o termo “repressão social”. É utópico, digno apenas de ser visto por uma lupa quando projectado sob uma mesa de luz e vasculhado em todas as integrações dos seus corredores, caminhos e linhas e arestas confusas, típico de um elemento desconhecido e, improvável. Assim começa e termina o trabalho de Tykwer sobre a liberdade pessoal e a evolução do amor. De dois, passa para três, e de futuro, passaria para o mundo inteiro, não em jeito decadente de Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley, mas em jeito de felicidade comprovada.

Tykwer experimenta, neste filme soberbo, obra de um mestre, não pregar ou impor uma transformação social, mas propor claridade: podemos viver sem as amarras sexuais e relacionais da monogamia e não sucumbirmos à repressão moral?

Um casal de pessoas trendy e virados para a cultura e as artes estão a chegar ao marasmo relacional e cada um procura o refúgio da morte eventual da relação num terceiro elemento, um cientista bissexual incapaz de se apegar a alguém, sem conhecimento do outro. Esta relação a três trás felicidade a cada um dos envolvidos, mas poderá suster-se quando todos estiverem ao corrente das “traições” por que passam?

Desde o medo da morte, solidão, contagem do relógio biológico à simples procura de novas experiências sexuais alimentam o enredo, mas no fundo não temos mais aqui uma procura pela felicidade. Eu adorei o filme porque Tykwer, isto nem falando em toda a sua mestria técnica e visual, sendo talvez dos realizadores europeus dos que melhor se distingue por um atavismo cinematográfico que consegue trazer de volta a grande distinção do cinema alemão, a serenidade de uma imagem carregada de significados. Regressando ao meu pensamento inicial, adorei o filme por nunca negar o preconceito, a dor, mas antes abraçando esses elementos, porque não há crescimento sem dor. Num romance a três desprevenido, como é o romance entre os protagonistas, o amor é tão mais belo e poderoso quanto mais sórdido e deu-me uma grande vontade de rir cada vez que evidenciava um dos chamados momentos de traição de homem-mulher, homem-homem, durante a operação de um deles, durante horas tardias de trabalho, numa viagem de barco, entre outras tantas, por não deixar de captar a completa visceral brutalidade que mentes tacanhas poderão não aceitar como naturais e levar a peito.

Este é um filme honesto, e não fossem os actores protagonistas tão exemplares no seu trabalho, dispostos a tudo para mostrar o melhor e o pior da humanidade no que toca a relações, deixaríamos de aceitar o amor pelo aquilo que é, bem-estar e entrega, e passaríamos apenas a julgar com ressentimento esta completa nega da monogamia.

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Como nunca estive legalmente empregado, não posso dizer que estou a um passo do desemprego, mas só com o tempo livre presumido de alguém nesse estado poderia criar este espaço. Bem-vindos e demorem-se, espero que...

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