Ruby Sparks

Há muito pouco a criticar sobre este filme, do ponto de vista do vosso crítico preferido, senão o por vezes ter a sensação clara de que o filme se apoia demasiado em convenções clássicas de Hollywood: a visita à casa da mãe para apresentar a namorada; o irmão/melhor amigo/confidente/ comic-relief; o encontro mirabolante entre o protagonista e o seu santo graal pouco depois do ponto de viragem dos 15 minutos iniciais; e toda uma outra série de coisas.

Ruby Sparks não é mais que uma versão mais apurada e, talvez por infelicidade nossa, clássica de A Vida Interior de Martin Frost.

Não deixa de ser um grande filme, e superior ao referido em todos os aspectos menos num que deveria contar, a meu ver, mais que todos: a originalidade. Daqui destaca-se apenas o final ambíguo e vagamente depressivo.

E que outra maneira há de trabalhar o amor quando se procura honestidade?

Os que procuram um objecto de cinema que não seja mais que uma dispendiosa declaração de amor entre o casal de protagonistas podem ir antes comprar o bilhete para ver Sempre A Abrir (criticado há umas semanas…não melhorou desde então e odeio aquele poster enganador). Não, Ruby Sparks é antes uma análise ficcional da qualidade destrutiva do amor, o egocentrismo como bandeira da procura de companheirismo, e fá-lo com uma exactidão arrepiante, desde os momentos em que Calvin (Paul Dano) se queixa da sua miséria solitária, ao seu formular de um exemplar feminino, a chamada Ruby Sparks (Zoe Casan), que atenda sempre e só às suas necessidades e caprichos, o desinteressar eventual por ela quando cai no conforto da relação, o controlo obsessivo da lealdade e vontade do par. Todos estes elementos podem ser picotados e enviados por correio azul para a ilha dos amargurados.

Em termos de honestidade e verosimilhança, por muito conduzido que esteja por classicismos, este é um filme exemplar sobre relacionamentos.

A história é simples, Calvin é um escritor de sucesso a passar por uma frase pouco criativa, sofrendo de falta de inspiração, e ao satisfazer um exercício do seu psicólogo descreve a companheira perfeita, alguém que o tem atormentado num sonho, a procura da sua musa, guia, a Vénus fantasma. Ao fazê-lo, acaba por criar, por tornar manifesta, essa pessoa, essa bela dona, a mulher dos seus sonhos, eterna liberal e hipster incondicional com problemas de sustentabilidade emocional, Ruby Sparks. A mulher perfeita é sempre aquela chama que se revela mais quente que todas e um dia queimará o idiota que se atreva a dançar com o fogo.

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Como nunca estive legalmente empregado, não posso dizer que estou a um passo do desemprego, mas só com o tempo livre presumido de alguém nesse estado poderia criar este espaço. Bem-vindos e demorem-se, espero que...

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