Uma Fuga Perfeita

Deixem-me antes de mais esclarecer que Steve Zahn é um excelente actor. Estamos entendidos? Ok, seguindo em frente…

David Twohy regressou já há uns anos, antes de se lançar para a conclusão da sua trilogia Riddick recentemente, com esta homenagem ligeira e, deliciosamente divertida, a Hitchcock. Chamo-lhe Hitchcock por via de terapia para casais, uma nova tentativa de modernizar o thriller, um trabalho que estes anos, perdido entre a carga emocional dos falsos indies, os blockbusters formatados e as comédias sonâmbulas, se revela até, original na escolha de um formato quase esquecido: o thriller adulto, com protagonistas adultos, não direccionado a um público não pensante mas sim a apreciadores de cinema que o encaram como o veículo perfeito para arte-entretenimento.

Não estou a dizer que Uma Fuga Perfeita seja o filme perfeito de há três anos, longe disso. É apenas um filme esquecido, talvez ironicamente chega cá tarde demais, que vem trazer algum novo fôlego à remessa habitual de cinema produto, comercializado nos últimos vinte anos. O mesmo cinema de Hollywood que ignora heróis com idade superior a trinta anos, vilões assumidos, um público inteligente para lá dos maiores de 18 e uma trama que apesar de prestar juramento à estrutura clássica de oito sequências, não se prende na preguiça dos enredos supraexpositivos dos últimos anos. Um filme para adultos com consciência do género e abrangência sem insultar a inteligência do público. É uma lição de amantes de cinema sobre o cinema clássico, onde a representação conta tanto quanto a tensão emocional e as revelações carregadas de urgência, a tragédia sempre ao virar da esquina, mas acompanhada de mão dada com a possibilidade de um final feliz.

Aqui há um tema: o amor é tão destrutivo quanto salvador; mas não faz questão de guiar o público ao longo do enredo como se este se tratasse de uma criança de 5 anos. Antes regressa ao final da década de 1970, inícios de 1980, quando os últimos resquícios do cinema moderno, o cinema ambíguo e realista, ainda se poderiam encontrar no cinema de puro entretenimento. Lembram-se desses filmes, onde apesar da trama ser completamente previsível, conseguiam capturar a nossa atenção com um controlo perfeito da mise-en-scene e um ritmo dedicado à imagem-movimento como veículo de narrativa, o filme ao serviço da história, e não o contrário, aquilo que encontramos hoje em dia, infelizmente.

Para quem aprecia thrillers coesos, simples, e reforçados por personagens fortes, temas sinuosos e um jogo de reviravoltas conexo com a narrativa, então este é o vosso filme.

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Como nunca estive legalmente empregado, não posso dizer que estou a um passo do desemprego, mas só com o tempo livre presumido de alguém nesse estado poderia criar este espaço. Bem-vindos e demorem-se, espero que...

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