Looper

Aliás, hábitos e vícios são o cerne desta história. Quer o mundo e os indivíduos que o habitam parecem estar presos numa simbiose de autodestruição, tanto que a única panaceia para os protagonistas (Joe e Old Joe) será alterar as linhas temporais através do homicídio. Do caos surge algo de belo, é o princípio da transformação evolutiva.

Joe, tendo uma profissão que lida de perto com a morte, ideal para personalidades emocionalmente estanques e sem expetativa de futuro, vive ciente de uma condição comum a todos os loopers, haverá de chegar o dia em que terá que assassinar o seu Eu Futuro, e teme esse dia. Daí em diante poderá apreciar a fortuna acumulada pelos seus serviços, vivendo uma existência emprestada, como um cão que aguarda o abate.
A submissão é regra-geral: a uma categoria de vida; aos erros do passado; a um mundo sem esperança. Há aqui uma completa falta de esperança e submissa degeneração social e humana que vemos representada por excessos de pobreza e ócio e um protagonista condenado a autodestruir-se figurativamente com o seu abuso de drogas e literalmente ao tentar matar o seu Eu Futuro. As metáforas são constantes e povoam o argumento. Há um ciclo de violência e perda bastante subtil e penoso, que nasce do egoísmo e dependência do sofrimento, e se Joe luta para preservar a vida de ócio e despego que tem, Old Joe luta para preservar a vida redimida que finalmente obteve, mas no fundo tudo o que fazem é matar e matar e matar, nunca esperando ter que pagar o preço absoluto por uma vida destinada a destruir: o sacrifício.

O futuro está cheio de boas intenções

Não pretendo estragar o filme a quem não o viu ainda, devo dizer apenas que depois da chegada de Old Joe (Willis), a história toma um rumo completamente diferente do que se faz crer, não sendo nada, mas mesmo nada, um filme típico de perseguição, mas muito mais um drama existencial de duas cabeças: Joe e Old Joe cumprem um protagonismo bilateral que gira em torno do elemento de mudança – para um futuro sem sofrimento, com redenção, para uma vida que possam controlar. Afinal todos os personagens são nada mais que rótulos neste universo tirano, a sonharem fugir de um futuro tenebroso, mas sem coragem de tomarem uma decisão realmente altruísta.

Tudo isto é trágico é fértil para histórias de Hollywood, mas geralmente completamente violado por um grupo de decisão que espera maximizar o lucro ao reduzir ao mínimo a ambiguidade moral do protagonista. Felizmente Johnson evitou representar Joe como um herói, e admirei a angústia ética que obrigou os seus personagens a assumirem. Angústia essa que não poderia existir sem a componente de um destino inescapável. Só me consegui aperceber do valor do próprio título do filme e de toda a mecânica por detrás da narrativa depois de alguma consideração, mas devo dizer que fiquei bastante impressionado com o trabalho em apresentar um argumento que é do princípio ao fim aquilo que uma história deveria ser: um conto sobre valores humanos que não se coíbe de fazer a audiência sofrer com e por causa do protagonista.

Agora a escolha de fundir dois estilos de narrativa poderia ter encavacado o filme e deixado Johnson na penúria crítica, mas este mostra ser um argumentista adequado, se bem que limitado pelos ditames do fantástico, ao conseguir equacionar bem o fator perseguição desesperada de Exterminador Implacável com o abrigo rural transformador de Testemunha. Este arco rural do filme preenche a secção mais interessante do ponto de vista dramático, não só por oferecer uma história completamente diferente do esperado, mas por finalmente introduzir uma linha narrativa emocionalmente relevante.

O filme sofre de um 1º ato que não é apropriadamente empático para certas audiências, mas nada de grave dado o poder dramático do resto da aventura.

É um trabalho bastante inspirado, se a ação não é o bailado visual de Brick, o filme é muito mais cativante pelo peso emocional da viagem dos seus dois heróis. Este é um filme de um fã do género destinado a fãs do género. É para os apreciadores de Akira, Blade Runner, 12 Macacos e o original La Jetée. Infelizmente, apesar de celebrar, não é equiparável a nenhum destes clássicos. Não por alguma falha técnica ou de talento, mas porque é demasiado homenagem e obra inspirada do que objeto original. Todas as histórias são recontares, tenho noção disso, mas Johnson não procurou distanciar este filme das suas influências principais.

Mas isto é meramente um potencial defeito, não é para mim um problema crasso do filme. Devo dizer que não posso apontar nada concretamente que me tenha deixado realmente perturbado ou insatisfeito a ponto de me recusar a vê-lo novamente. O filme é muito mais simples e modesto do que eu desejava, um caso de sci-fi ligeiro, fantasia que não se pode dizer pura porque tem capa de ficção-científica, mas continua a ser uma boa aventura e um prazer distinto.

Fiquei particularmente satisfeito por o elemento das viagens no tempo nunca deixar de ser um simples adereço. Tem muito mais peso no ecrã a viagem pessoal de Joe do que os malabarismos da “ciência” presente, tanto que quer Bruce Willis e Jeff Daniels em momentos separados descartam completamente a possibilidade de tornar lógico esse Macguffin. Viagens no tempo existem como conceito, sigam em frente e apreciam a aventura, senão o vosso cérebro frita-se. Palmas para Johnson, um cineasta que tem pelo menos perfeita noção das suas limitações.

Agora onde o filme não se limita nada é na interpretação. Maravilhosa, com o toque ideal de bravado, estereótipos humanizados, vilões carismáticos e relutância anti-heróica que o tornam um poço de referências para gerações futuras. Ninguém fica aquém de ninguém, Willis está de parabéns por conseguir fazer-nos esquecer das entregas pobres a que nos habituou nos últimos anos. Até papéis menores entregues a Jeff Daniels e Paul Dano conseguem ficar tatuados no nosso pensamento e o protagonismo secundário de Emily Blunt, como uma jovem mãe atormentada, Sara, dedicada a proteger o filho, personagem que é a segunda chave do filme, engradece a atriz.

Curvo-me em veneração aos pés do jovem ator, Pierce Gagnon. O seu personagem Cid, o filho de Sara, é um arauto da tragédia e inocência corrompida que só poderia ser interpretado com a maturidade honesta que Pierce oferece. Se querem encontrar o Akira em versão live-action, não procurem mais.

Levitt é excelente a representar Joe quer como um jovem Willis, quer como um herói trágico que deixaria os celebrados gregos de lágrimas nos olhos. Tudo está definido na cena de abertura do filme, quando vemos Joe à espera de mais um alvo junto às habituais searas de trigo, enquanto escuta serenamente e repete as lições de francês para iniciados, um constante sonhador que pensa ser mais do que uma simples máquina de matar, mas que não se atreve a fazer a mudança definitiva, vivendo sempre na rotina de uma vida instrumental. Levitt é capaz de acoplar tanto uma melancolia existencial como uma frieza apática que tornam este personagem ideal para o propósito anti-herói.

A chave está na tragédia

No fundo esta busca de identidade de Rian Johnson é uma máquina no tempo com aspirações existenciais, tanto na história recalcada como na própria carreira do realizador. Parece querer apurar o seu traço definitivo como artista, o uso da câmara como mecanismo de encenação da ação e a recusa do abuso de CGI, um argumento dependente de reviravoltas imprevisíveis, mas que nunca fogem de uma estrutura já conhecida, e um protagonista que se encontra no intermédio entre anti-herói e vilão. O problema é que há momentos em que a fórmula em si já parece gasta porque Johnson não apresenta nenhuma interpretação nova ou inovação do seu próprio estilo.

Para mim isto não o tornou mau. Segui-o do início ao fim à espera de encontrar um épico de ficção e o visionamento foi muito mais melancólico e dramático do que esperava, o que até se revelou uma agradável surpresa. Johnson nunca oferece só puro entretenimento, e por isso Looper é um achado que deve ser preservado, não por ter criado a pólvora, mas por saber como a tornar relevante outra vez numa época de falsos twists ou narrativas gastas, um filme que surge da inspiração numa cultura cinematográfica que sabia como tornar válidos os conflitos dramáticos de géneros fantasiosos.

O realizador mostra que sabe fazer uma perfeita fusão de géneros e se a história parece forçada, não nos apercebemos dada o melodioso avanço da narrativa, sempre acompanhando as batidas humanas do protagonista de serviço, seja Levit ou Willis, isto porque as escolhas éticas de ambos são tão pesadas e, devo dizer que deliciosamente chocantes, que vos deixarão incomodados, e indecisos sobre como os julgar. Em particular, o momento em que Willis decide alterar o futuro de Joe e se vê forçado a matar uma vítima inocente, demasiado inocente até pela sua idade. Este momento deixará marcas no espetador, principalmente porque sentirão que se estivessem no lugar dele, com as mesmas peças em jogo, talvez tomassem a mesma decisão ingrata.

Mas há mais irregularidades. A mestria aparente de tecer a tela como um instrumento de cinese que Johnson demonstrou possuir em Brick parece ter sido algo esquecida em Looper. O ritmo é mais desequilibrado e a montagem não tão fluida e dinâmica como seria de esperar.
Até os momentos de apoteose visuais são raros, mas quando existem, garanto-vos que não ficarão desiludidos, principalmente quando Old Joe aproveita a oportunidade para se vingar dos seus velhos patrões no passado, com Willis a empenhar-se ao máximo numa sequência de carnificina que se encontra a um passo do épico, mas dá provas do seu mérito como estrela de ação. O seu olhar frio, completamente coberto de sangue e desprovido de alma ilustra o momento definitivo de um personagem determinado a destruir os seus criadores e comprova porque é que Johnson consegue ser muito mais hábil a contar uma história através da olhares do que do diálogo.

Notam-se arestas por limar e um orçamento limitado para a aventura proposta, mas Looper é apenas uma excelente cópia, não um achado, uma aventura que se não surpreende, acaba por bater nas teclas certas.

É um bom pedaço de cinema, mas infelizmente para a Sétima Arte, ainda não foi desta que encontrámos o Blade Runner do século XXI. No entanto, já em 1982 não sabiam o que tinham nas mãos, por isso espero vir a perceber mais tarde o erro das minhas palavras.

Filipe Santos

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Como nunca estive legalmente empregado, não posso dizer que estou a um passo do desemprego, mas só com o tempo livre presumido de alguém nesse estado poderia criar este espaço. Bem-vindos e demorem-se, espero que...

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