Frankenweenie

Estava enganado quando iniciei e terminei a primeira versão desta crítica. Enxovalhava as intenções de Tim Burton com a mesma hermenêutica de um escolástico moralista, nada diferente da ignorância demagoga que Burton crítica no seu filme. Frankenweenie não deixa de ser um trabalho com falhas a nível narrativo, no sentido de que o próprio Burton, como criador, não procura compreender os dois lados desta moeda – a consequência das intenções ingénuas da juventude.

Decidi voltar atrás após discussão com a minha predileta adversária de conversas sobre cinema e, provando estar enganado, realmente encontrei mais força vital neste filme, uma intenção pura em simular a angústia da infância e a procura última da felicidade, do que julgava. Tudo isto levou-me a reconsidera-lo e aprovar a meus olhos Frankenweenie como o melhor filme do realizador caído em desgraça, desde A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça (1999).

Devo agradecer a Tim Burton por nos relembrar Harryhausen, Price, Wood, Browning, Lugosi e Mary Shelley, desenhos-animados de sábado de manhã e todos os serões de matiné da Universal. É coração e animado, amor de criança e cinema puro e cego de acolher o amor juvenil.

Infelizmente essa cegueira pode ser contaminante e negar às crianças uma aprendizagem, porque se sente que no fim do filme, apesar das reviravoltas, o peso ético de se manipular a vida e a morte não afetam verdadeiramente o protagonista, Victor Frankenstein. Mas talvez para Burton, e para muitos de nós, a viagem seja mais importante que o destino. Talvez o que conte mesmo seja a amizade eterna entre um rapaz e o seu cão e não a fixação doentia de se permanecer preso à infância.

Victor Frankenstein (Charlie Tahan), um jovem engenhocas cujo melhor amigo é o seu cão Sparky, consegue trazê-lo de volta a vida depois de um infeliz atropelamento através da influência do seu agreste, mas bem-intencionado, professor de ciências, o maravilhoso Mr Ryzkruski (Martin Landau). Infelizmente o retorno do adorável Sparky vai gerar uma corrida competitiva com os seus colegas de turma, um grupo macabro de estudantes que fará de tudo para vencer Victor no concurso da feira de ciências da escola, mesmo que implique roubar a fórmula de Victor e criar as suas próprias experiências. Mas quando estas não são feitas com amor, o resultado será catastrófico, e cedo há uma legião de monstros à solta por New Holland, cabendo a Victor salvar o dia. Lá pelo meio um cão morto-vivo faz-nos rir e estereótipos de John Candy’s infantis, japoneses competitivos e um Boris Karloff adolescente deixam os fãs de lágrima no canto do olho. Apesar de tudo, quando o filme termina, o legado da série B revela-se morno, pois esquece-se daquilo que destacava os filmes que o inspiraram (Dracula, Frankenstein, The Invisible Man) da ramboia execrável da época – uma consciência ética.

No entanto as vozes estão fabulosas, a comédia é inofensiva e os elogios são muitos e de respeitar, principalmente quando todos os monstros clássicos marcam presença e a estética de cemitério Expressionista de Burton parece brilhar. A crítica social pode ser demasiado preto e branco (sim, literal e figurativamente) e a lição do dia ignorar a ética em nome da felicidade, mas porque não? Talvez falte um pouco mais de egoísmo a toda a gente para se poderem compreender, não? Burton pode ter encontrado uma resposta filosófica à tirania do altruísmo.
O realizador favorito que parece ter quebrado corações nos últimos anos está de volta, mas a meio gás. Quando antes tínhamos o perigo dos desejos de Os Fantasmas Divertem-se e a ironia trágica da determinação de Ed Wood, até a fixação destrutiva tornada justiceira de Batman, agora temos a manipulação da natureza em nome da felicidade e…só isso. Burton perdeu noção do significado de consequência. Lá alude durante o filme, lá faz promessa de que irá cumprir, mas tudo o que temos é uma tentativa nostálgica de reviver a infância e nunca crescer. O que Burton não pode esquecer é que nós sempre o amamos enquanto criador, ou pelo menos eu. Nem que seja um amor de criança, ingénuo, farto e, no fim de contas, ignorante, como o próprio filme se revela.
Bom para miúdos e graúdos que não queiram esquecer a infância.

Segue-se uma análise mais detalhada se quiserem ler…

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Como nunca estive legalmente empregado, não posso dizer que estou a um passo do desemprego, mas só com o tempo livre presumido de alguém nesse estado poderia criar este espaço. Bem-vindos e demorem-se, espero que...

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