Frankenweenie

Este é afinal só um filme para crianças, e talvez Burton queira apenas tornar imortal essa sua sensação, partilhada por todos os que não foram demasiado espancados por maus pais, de que a infância é a condição eterna da felicidade.
O que se poderia esperar, quando tudo o que vemos no filme é tacitamente um reflexo da própria infância de Burton? A cidade, um pesadelo pacato do colonialismo Holandês; a sala de aula macabra habitada por estereótipos disformes e dolorosamente atraentes; as personalidades da classe média acomodada ao baby boom, tanto corrompidas como humildemente conservadoras; tudo isto captado por uma tela diluída, sem glamour colorido, a beleza dos cinzentos, as figuras macabras com intenções maniqueístas, um silêncio inóspito, mas tão cheio de vida pelo bizarro, que é o cinema de Burton há tanto esperado. O falso expressionismo regressou.

Há de facto a tentativa de comunicar com a audiência, de criar lições através da figura de Ryzkruski, o professor severo mas iluminado, racional, e a população comedida e cheia de bons costumes, mas infinitamente ignorante, como os competidores de Victor, os seus colegas simbólicos: o gordinho asqueroso, o japonês impiedoso, o nórdico macabro e o Igor de circunstância, o clássico palhaço do grupo. Todos estes personagens dão mau nome à ciência exceto Victor e o seu professor, as únicas tochas distintas do conhecimento e razão: porque são curiosos, porque levantam questões.
Infelizmente Burton propõe questões que, nesta experiência infantil, não sabe responder: como lidar com um controlo sobre a morte que provoca a dor naqueles que amamos mas serve para manter o nosso ego satisfeito?
Não há resposta, aparentemente, exceto continuar a iludir a dama de negro. E que resposta realmente podemos oferecer sem nos tornarmos tiranos da razão e da vida? Ao menos Burton é modesto o suficiente.

Victor continua a tentar iludir, a enganar, a controlar o poder sobre os mortos, tudo porque não pode aceitar crescer, e cada vez mais o mundo adulto à sua volta segue em frente ignorando a sua necessidade de ser ouvido e ensinado, e reage aos fenómenos que ocorrem com, por vezes necessária, agressividade. Tudo isto culmina num confronto bastante divertido e de homenagem amorosa contra um rol de criaturas monstruosas, cada uma identificativa dos monstros clássicos que as inspiraram. No climático final do filme – uma sequência de aventura à boa maneira dos clássicos trágicos, com o necessário moinho em chamas e a morte do animal de estimação no momento de derradeiro sacrifício – Victor é forçado a enfrentar as consequências a custo da própria vida, para tentar salvar a vida de Elsa e acaba por enfrentar a perda mais uma vez. Ao ver o efeito, penso eu, do que o seu trabalho gerou na comunidade, está pronto a deixar Sparky partir. Perfeito! Mas não…e este é o meu problema com o filme no que diz respeito a uma pequena parte de mim que é um crítico pedante: Sparky regressa, e não há consequência ou lição, não há sequer ousadia de cuspir na cara do universo, uma crítica escondida aos criacionistas ou falsos moralistas.

O filme não é sátira no seu retrato temático, é sim uma distração de extrema qualidade, mas que corre o risco de ser visto, de futuro, como um objeto vazio.

É doloroso lidar com a questão de um filme para crianças ser completamente instrutivo, sentimental, divertido e ligeiro, e no entanto sentir que teria que oferecer algo mais tematicamente e não só cumprir com uma evolução do protagonista pragmática, de modo a justificar-se perante os deuses do argumento “Eu segui os 8 passos, o meu herói evoluiu e tornou-se melhor, o meu filme de animação deve ser consagrado”.

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About ossosborea

Como nunca estive legalmente empregado, não posso dizer que estou a um passo do desemprego, mas só com o tempo livre presumido de alguém nesse estado poderia criar este espaço. Bem-vindos e demorem-se, espero que...

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