A Morte Necessária de Cloud Atlas

Há de facto uma acomodação do público de que todos temos conhecimento, um apego por filmes que preencham as necessidades básicas de conforto e controlo sobre narrativas que não peçam demasiada abertura ou esforço mental da parte do espetador. Este é o filho problemático de estúdios dos anos 80 (e continuarei a usar este termo até atingir o ano 2080), cuja gerência foi relegada não às mãos de cineastas, mas de puros gestores. Gestores esses naturalmente condicionados pela mentalidade de alta concorrência, a de tornar o produto cinematográfico o mais abrangente possível, uma necessidade na passagem dos anos 70 para os anos 80, com vista a salvar os estúdios moribundos e garantir sucesso com risco controlado.

Mesmo assim há que ter em conta que este fim-de-semana reservou o seu top 5 de estreias nos EUA para filmes reservados a maiores de 18 anos, o que já por si é um feito num panorama de cinema de entretenimento em decadência. Não há volta a dar-lhe, todos sabemos que a qualidade dos filmes dirigidos a um mercado mais vasto tem descido drasticamente nas últimas décadas. No entanto, apesar da aparente desistência do público em escolher filmes que sigam uma mentalidade juvenil, nenhum dos casos registados neste top 5, exceto Cloud Atlas, pode ser analisado como inconformista. Também estamos a falar de uma época em que a afluência ao cinema é menor, e reservada para os verdadeiros apreciadores da Sétima Arte como isso mesmo, uma arte. Mesmo assim, contam-se de facto pelos dedos, e só se encontra um, se estivermos à procura de entre os 5 figurantes exemplos de narrativas não figurativamente não-lineares.

Posto isto, há que ter em conta que cada vez que um épico, seja de que género for, produzido por que indústria seja, lança o mínimo sinal de alerta no horizonte (47 Ronin) Hollywood retrai-se e tenta compensar uma perda futura ou a ameaça de concorrência.

Claro que a maioria de nós, conhecedores ou não, mandaretes ou manda-chuvas, está consciente de que Cloud Atlas será um bom filme. “Perfeito” ou “incrível”, são apreciações que sempre foram demasiado frágeis, particularmente hoje em dia em que as suscetibilidades se encontram tão à flor da pele (O Cavaleiro das Trevas Renasce deve ser dos mais distintos na categoria de “épicos reconhecidos” que causou tanta divisão na audiência), mas é inescapável reconhecer que possui um grau patente de qualidade. No entanto, mesmo que encontre sucesso crítico, seria o ter sucesso de bilheteira que pregaria o último prego no caixão do cinema de massas: Hollywood procuraria replicar o sucesso de uma fórmula nova e desafiante (segundo os seus critérios), subvertendo-a a uma voga, e eliminando qualquer traço de criação artística. Acabaria por condenar à morte a pouca fé do público em ofertas de cinema originais e honestas que não sigam o mote de vender sabão.

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About ossosborea

Como nunca estive legalmente empregado, não posso dizer que estou a um passo do desemprego, mas só com o tempo livre presumido de alguém nesse estado poderia criar este espaço. Bem-vindos e demorem-se, espero que...

One response to “A Morte Necessária de Cloud Atlas”

  1. jc says :

    Sempre me passaram um pouco ao lado as vicissitudes e necessidades do mercado americano. Estou curioso por este filme. Esperemos por ele então.

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