A Morte Necessária de Cloud Atlas

Posto isto, o fracasso deste novo épico é uma dádiva para todos. Salva tanto conhecedores como entusiastas, exploradores ou ignorantes. Não implica uma revolução dos parâmetros, doutrinas e orçamentos em Hollywood; não implica o público ser sujeito a uma vaga imparável de réplicas menores; não implica a deturpação da ideia virtuosa por detrás deste épico, a de criar uma obra desafiante, sem rodeios, sem controlo dos estúdios, com destino a ser vista por todos, mas sem menosprezar quocientes. Não haverá violação sucedânea, os filmes continuarão a ser feitos de acordo com o ratio de que fórmulas desafiantes pertencem a verdadeiros contadores de histórias, não a executivos demasiado preguiçosos para tornarem um peido intelectual numa obra com princípio, meio e fim e um objetivo social através do seu próprio esforço.

Imaginem o que ocorreria se fosse o contrário: vagas sucessivas, infinitas, de adaptações ambiciosas, mas acomodadas ao sistema reinante do cinema Ocidental de Hollywood, o que implica uma qualidade controlada, fabril.


Esta é a regra do épico de Hollywood: controlo clássico.

Tomem o exemplo de Os Vingadores, conseguiram transformar uma das equipas mais açaimadas da Marvel num objeto ainda mais contido, inconsequente. O Cavalo de Guerra, de Spielberg, ambicioso visualmente e empático, mas completamente nostálgico, tanto que o cheiro a estanque se tornou danoso.

Por isso eu agradeço aos deuses do cinema, sendo eu uma criatura de completo pessimismo, por terem negado o bom senso da audiência em afluir a um filme único e desafiante. Há que estancar uma revolução que afundaria ainda mais o cinema contemporâneo na Idade das Trevas. Não tenho qualquer esperança de que esse modelo seria adaptado por Hollywood sem manipulação. A Fábrica dos Sonhos é mesmo isso, uma fábrica. Segue um conjunto de regras com vista a produzir o melhor resultado, neste caso a rentabilidade financeira. Nunca chegará a prestar o serviço humanitário exigido pela condição de arte.

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About ossosborea

Como nunca estive legalmente empregado, não posso dizer que estou a um passo do desemprego, mas só com o tempo livre presumido de alguém nesse estado poderia criar este espaço. Bem-vindos e demorem-se, espero que...

One response to “A Morte Necessária de Cloud Atlas”

  1. jc says :

    Sempre me passaram um pouco ao lado as vicissitudes e necessidades do mercado americano. Estou curioso por este filme. Esperemos por ele então.

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