Archive | Novembro 2012

Crítica “Breaking Dawn Part 2”

Lamento a demora mas o cinema é mais barato à quarta-feira…


Terminei a mais recente saga de adaptações young-adult (sinónimo: literatura mansa) de fantasia. Twilight é conhecido mundialmente por trazer novo fôlego ao conceito do vampiro como uma personagem de ficção a explorar, romantizar e tornar apelativa novamente.
Este renascimento implicou transformar esta criatura habitualmente concebida como monstruosa, ou tragicamente bela, num ser puramente estético segundo padrões de moda e um ícone dos corações de milhões de adolescentes e donas de casa desesperadas. Esse mesmo ícone dos sonhos românticos também teve sucesso ao atormentar a mente de gente sã, coerente e acima de tudo, em devastar os mais puristas ao conseguir destruir todo o legado erguido por grandes como Bram Stoker, Rice, Murnau e Browning.
Isto porquê? Porque subverteram e modificaram alguns dos atributos mais característicos dos bebedores de sangue? Os vampiros podem brilhar, meus amigos. Afinal, são figuras lendárias, não tem existência factual…é só bastante piroso ver isso acontecer.
Não, apenas porque representam elementos fantásticos com uma proximidade demasiado facciosa, e claramente submissa a romantismos populares e padrões adolescentes.
Claro que o último capítulo desta triste saga teria que acabar em rigor com o material de base, um festival de pirosice, má escrita e corpos exangues.

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Pedaços do Festival do Estoril – Holy Motors

Há realizadores que filmam objetos. Há realizadores que filmam narrativas. Há outros que escolhem ideias. Há aqueles que tentam misturar os três. Muitos falham. Carax pode ter falhado, não o sei dizer.

De momento, estando o visionamento ainda demasiado fresco na minha mente, só posso transmitir o meu apelo a que Holy Motors seja visto.

Faço-o dizendo que se tem que procurar algum filme que aponte à humanidade uma existência de performance, e que no seio dessa experimentação mesmo assim consiga tornar clara uma narrativa trágica sobre a prisão existencial de um homem condenado a não experienciar a sua própria vida, este é o filme a ver.

Oscar é um ator, um performer, uma ferramenta de uma máquina universal que o coloca ao serviço de diferentes “marcações” onde cumpre diferentes papéis de sátira social, anarquia humana e introspeção espiritual.

A sociedade e os padrões humanos são vistos a olho de lupa neste projeto que isola diferentes condições desde o pai divorciado; o abominável das catacumbas; o escravo da era digital; o velho moribundo arrependido ou um macaco preso numa vivenda germinada, entre muitos outros. No seu todo é um leque de representações que aparentemente não tem nada em comum mas acabam por apontar que cada realidade humana não é mais que uma categoria a interpretar, e ao longo da nossa existência nunca nos sobra espaço para vivermos as nossas vidas no seio deste grande engenho universal sem nome. Vontade ou ironia universal?

Carax oferece um exemplar difícil, muito contestado pelo público na sala em que o vi. Apupos não se ouviram, mas risos de gozo e perfeita incredulidade perante alguns dos momentos mais inspirados e, bizarramente distantes do público, como o episódio do gnomo dos esgotos de Paris que ao som da banda-sonora de Gojira invade e rapta Eva Mendes no meio de uma sessão fotográfica ao serviço da estética ocidental, apenas para a transformar numa companheira balaústre do Islamismo, modelo de passadeira para as novas coleções Outono-Inverno de turbante, foram muitos.

Pobre Kylie Minogue encontrou no seu episódio revelador e de lastimável tragédia muito pouco aceitação do público. Não deixou de ser dos momentos mais coerentes, a ponta de um icebergue que pedia mais magia e menos…distância.

Mesmo assim é maravilhoso, discordante, confuso e subliminar. No seio de tantos comentários sociais, vem ao de cima a história de um homem preso em performances. Denis Lavant é uma máquina, um executante de uma abrangência assustadora, quase robótico na sua perfeição.

Em Holy Motors, o ser humano é uma roldana no motor divino, e existências são sinónimos de profissões, pois por muitas máscaras que use, Monsieur Oscar é tanto um banqueiro, assassino ou pedinte como uma ferramenta sem nome e espaço para apreciar a sua própria existência. O que lhe resta é a segurança no interior da limusine, apreciar o mundo à janela e os cigarros que asseguram o cancro emocional que nos consome a todos. Carax determina que não podemos ser mais que espetadores num jogo em que usar uma máscara é regra universal e os momentos trocados entre os atores/humanos são tão reais como cenas num guião divino.

Mas o grande mérito neste filme está na introspeção emocional, e realmente devastadora, que causa ao aplicar uma perspetiva assustadoramente pessoal numa tela nada objetiva. O filme não deixa de ter as batidas certas e será discutível se há um enredo, ou apenas um conjunto de ideias conceptualizadas, mas fora essa ambiguidade narrativa, Carax vence-nos com uma crítica social, humana, um apontar o dedo a nós próprios como espetadores que não deveriam estar naquela sala de cinema pois a felicidade é uma ilusão se continuar restrita ao “grande ecrã”.

Lamentável e sombrio, mas completamente necessário, não é para mas deveria ser visto por todos, nem que seja para despoletar uma necessidade primária de mudança.

Se é pouco mágico ou visualmente rico, revela-se transcendente e penetrante nos símbolos manifestados, tanto mais contundente como uma pedra rolante que nunca encontrará um fundo em que aterrar.

Filipe Santos

Pedaços do Festival do Estoril – The Master

Paul Thomas Anderson retorna ao grande ecrã depois do magnífico There Will Be Blood. O que sobrou da mestria empregue nesse último filme chegou para alimentar o seu mais recente projeto, The Master?

Sim, é um trabalho quase excelente. Assustador superficialmente, belo e trágico quando se passa a barreira invisível.
Aqui Joaquim Phoenix é Freddie Quell, um veterano de guerra alcoólico e um animal fodilhão, verdadeiro sociopata, sem outra forma de expressão senão embebedar-se, alimentar o desacato e procurar onde deixar a sua semente, encontra uma espécie de paz e combate o ódio interno ao deparar-se com os ensinamentos messiânicos de Lancaster Dodd, um incrível e prototípico estandarte da velha elite intelectual americana e falso profeta que usa um modelo de culto, A Causa, para guiar o seu rebanho até à terra prometida da felicidade. Dessa amizade pode tanto surgir a completude, como a autodestruição. O fundamental é que se torna evidente o nível de ridículo a que chegamos ao fazermos de tudo para sermos felizes menos atrevermo-nos a procurar as respostas em nós próprios.

Pode trazer dores de cabeça a um espetador habituado a um ritmo mais animado e não preparado para lidar com a contemplação de Dodd ou o olhar distante, mas magnético a meu ver, de Anderson em relação à ação. Aos restantes, ficaremos gratos por esta obra, que é de facto uma obra – diga-se um filme sério, com propósito, tema e cuidado em todos os seus constituintes – em que o realizador se revela um mestre a iludir-nos com símbolos de amor, amizade, homossexualidade escondida e até a crença na reencarnação.

As interpretações serão muitas, as respostas sempre subjetivas, mas torna-se quase dogmático que os opostos não se atraem, antes são simbióticos, duas faces de uma mesma moeda. Quell e Dodd não são mais que duas versões do mesmo ser universal, neste apontamento sobre o sofrimento humano em adaptar-se a uma condição social.

Aqui as bebedeiras, as bulhas e as angústias amorosas são tão naturais como a respiração irregular de um cão moribundo. O homem está a caminhar para a sua morte e não encontra a resposta em fatos de linho, palestras de auto ajuda ou sequer no álcool, tudo isto são meras distrações. Há uma consciência muito poderosa no argumento deste filme, tão poderosa que se dá ao trabalho de escolher ignorar apresentar uma estrutura evidente, antes deixar-nos saborear um percurso natural, uma respiração narrativa, visceral.

Os atores estão brilhantes, ao ponto de ser quase um insulto amealharem oscares. O filme permanecerá na memória de todos para nos recordamos do exemplar a seguir no que toca a interpretações emersas e por louco que soe, superiores às de qualquer outro filme de Anderson.

Talvez o seu ultra-realismo seja importuno para alguns, e a estrutura subliminar pareça demasiado subtil, inexistente a olhos destreinados, mas garanto-vos que está lá, e a história é tão uma busca de felicidade como uma trágica constatação de que não há resposta certa nesta vida.

Um pedaço de história, dos confusos e desorientados anos 50, da perene condição perdida do “bom” selvagem. A cinematografia é mais que imagem-movimento, mas um conjunto de quadros retirados de uma década de sonho e pesadelo.

Este é um filme a sério, dos mais belos, realistas e maravilhosamente representados sobre uma angústia que infelizmente, nunca será ultrapassada, pois as respostas não existem ainda. Ou como diz Dodd “If you find a way to live without serving a master, let the rest of us know”.

Aqui o Mestre é o ideal social, e a amizade um vínculo de angústia entre duas entidades que existem em simultâneo, partindo do mesmo ideal de pessoa. Não admira que Dodd não se consiga recordar de onde conhece Quell. Reconhecermos os nossos defeitos é sempre doloroso, e força-nos a seguir por caminhos de ilusão, ludíbrios, e afinal de contas, viver segundo credos ignorantes num mundo de ignorância.

Pessoal como se quer, abrangente como se teme, fica aqui o aviso de que fará chorar aqueles que aceitam chorar no cinema. Aqueles que muitas vezes ao olharem-se ao espelho não se conseguem recordar o próprio nome.

Filipe Santos

Crítica “Skyfall”

Um personagem responsável por alguns dos melhores momentos da minha infância também foi responsável muitas vezes por quebrar o meu coração. Desde o espetacular Goldeneye, com alguns momentos de inspiração pelo meio (os dois primeiros filmes de Craig), que a saga me tinha deixado completamente desiludido. O que encontrei nesta abordagem de Sam Mendes, um realizador que se pouco me cativa narrativamente, sempre me encantou com a sua sensibilidade visual?

Uma fuga muito apreciada a uma degeneração pipoqueira da saga mais longa do cinema de ação. Não há cá planos inexplicavelmente malévolos, super-vilões, conglomerados do crime, ou novas ordens mundiais. O que há é um ex-agente rancoroso a tentar destruir o legado de M, a morte dos dias da espionagem. Um agente ultrapassado, alcoólico e chauvinista é o único no caminho para preservar os velhos costumes.

Skyfall é um filme legítimo de James Bond e muito mais. Aqui a história gira em torno de um herói muito mais trágico do que estamos habituados a ver (mesmo depois da morte de Vesper Lynd). Bond, um patriota sociopata e treinado para matar foi abandonado e deixado como morto às ordens de M, a sua comandante, que desespera cada vez mais ao encontrar-se na mira quer de um Governo burocrata que procura eliminar um conceito de serviços secretos que já não funciona num mundo globalizado, quer de um perigoso ex-agente rancoroso, o assustador Silva (Javier Bardem), a ovelha mais negra da família. Cabe a Bond, outra vítima dessa mãe distante e um ser estranho e ultrapassado neste mundo violentamente tecnológico, salvá-la das intempéries, senão em nome da pátria, em nome de si próprio. Por vezes os filhos têm dificuldade em dizer adeus, principalmente quando estão armados e treinados para matar.

A ação é violenta e bela, as Bond Girls cativantes, e o argumento sobrevive aos piores críticos tanto em termos de estrutura e alma.

Pode não ter a introspeção de Bourne ou o espetáculo elaborado de Missão Impossível, nem ser sequer o patamar mais elevado em termos de diversão, mas é o mais maduro deste panorama de filmes, verdadeiramente uma obra de cinema. Um 007 decididamente cuidado, um jogo de ação em torno de um personagem que se por vezes fraquejou em termos de complexidade ao longo dos anos, consagra-se neste filme como o definitivo agente secreto, e um marco no cinema naquele que poderá ser um retorno à idade adulta do género.

Skyfall é o melhor 007 de sempre.

Para quem procura uma análise mais prolongada e com algumas revelações…