Crítica “Skyfall”

Claro que, se conseguiram perceber da premissa, Skyfall está balançado entre duas narrativas, enfrentar o passado e o medo da antiguidade. No entanto, nunca o faz com desarranjo. Se não explora mais a condição de Bond como um objeto arcaico neste universo demasiado globalizado é porque esse elemento funcionou apenas de chamariz para nos introduzir a um elemento que andava em falta no agente mais amado do Cinema há muito tempo: o conflito interior. O que está no cerne dessa criatura violenta e incapaz de amar? Numa época em que o público não consegue largar personagens problemáticos, já saciados de sagas de ação/espionagem com forte teor dramático, um contraste ao que estávamos habituados a ver na coletânea 007, era necessário superar a oferta concorrente. Traumas de infância foram a escolha certa.

Se em Casino Royale e Quantum of Solace o personagem brincou com a ideia de felicidade vã e a sua violência desligada e, verdadeiramente assustadora, em Skyfall encontramos um Bond muito mais humano e frágil (não esquecendo a sua capacidade para a frieza, muito bem ilustrada em todos os seus flirts provocadores com Naomie Harris ou durante toda a sequência passada em Macau, onde Bond tem a oportunidade de partir o coração a duas Bond Girls, deixar incapacitados dois capangas e alimentar um terceiro a um dragão de komodo… um dos muitos acenos aos clássicos). Sente-se principalmente que esta é a interpretação ideal do ator, completamente destilada e assumida.

Ao longo da sua viagem para descobrir este inimigo misterioso que está a torturar psicologicamente a malograda M e ameaça a sua vida, Bond terá que aprender a aceitar a amar as suas falhas e a aceitar a sua humanidade se quiser adaptar-se ao novo mundo em que se encontra. E não é esse um dos maiores desafios do plano civilizado de que fazemos parte?

Pode não ser o trabalho mais delapidado possível no que toca a matéria dramática, mas é um filme de mestre no que toca à realização, com um ritmo fascinante e uma capacidade dinâmica de oscilar entre sub-géneros com particular facilidade. Muitas vezes sente-se como uma reunião de melhores momentos da saga, compostos todos num só filme, mas com uma poderosa linha condutora a unir estes momentos.
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É a reinvenção necessária de uma série que começou com a mira desviada e encontrou a alma do seu herói: o retorno às origens, com todas as convenções necessárias – a perseguição inicial dura 15 minutos, mas é o único elemento mais ridículo do filme, ou não tivesse uma perseguição de mota pelos telhados de Istambul. Mesmo assim termina com um tom sombrio, dada decisão trágica que coloca em risco a fé de Bond não só no sistema, mas em si próprio. Além disso Skyfall apresenta um vilão singular e agradavelmente tão maníaco quanto prático, e um protagonista anacrónico que continua violento, machista, sem consideração, egoísta, um hooligan armado que não consegue aceitar ter sido órfão.

Mendes compreende a necessidade de elogiar os clássicos para poder evoluir a partir desses lugares comuns. As ilhas misteriosas, viagens desnecessárias e o Macguffin da praxe são apenas acenos, homenagens à estrutura base, para depois se permitir evoluir para uma narrativa muito mais sólida em termos dramáticos. Este é tanto um filme que segues os classicismos, como o lado mais pessoal de Bond, na onda de Ao Serviço de Sua Majestade e Licença Para Matar.

John Logan, o argumentista, não chega realmente a introduzir nada de novo na saga a nível estrutural. Isso cabe apenas à viagem emocional de Bond, que é muito mais um homem de carne e osso, com receios, fobias, sentido de humor, e necessidade de pertença, de amar, do que tínhamos sido habituados. Daí as suas relações com as mulheres serem acima de tudo passageiras e provocações, porque o que está em causa neste jogo é o amor da Bond Girl mais importante da saga, M.

Aliás, não poderia haver uma crise pessoal nesta etapa da história de Bond se não fosse derivada de uma mãe. Esta tem sempre o seu quê de culpa e Skyfall ilustra tanto a resolução de uma crise muito badalada entre Bond e M (que se torna finalmente relevante emocionalmente), como o reflexo negro que essa história poderia ter (através de Silva, o vilão maravilhoso que me deixou várias vezes tão amedrontado, como de lágrimas).

Não se iludam pelo que o trailer nos reservou, Skyfall é muito mais terreno e deliciosamente lógico. Se por vezes nos parece megalómano, depende apenas do nosso ponto de vista em relação a Silva. Sim, enfiar um comboio por uma sala de esgotos a dentro para procurar deter a perseguição de um 007 enfurecido pode ser algo extremo, mas pertence tão bem às tendências de um personagem controlador e espalhafatoso e está executado com um detalhe tão sublime e um aceno tão honesto e amoroso aos clássicos da série, que não consegui evitar senão barrar na minha cara um sorriso de orelha a orelha.

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Como nunca estive legalmente empregado, não posso dizer que estou a um passo do desemprego, mas só com o tempo livre presumido de alguém nesse estado poderia criar este espaço. Bem-vindos e demorem-se, espero que...

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