Crítica “Skyfall”

E de muitas maneiras este é um regresso aos clássicos. Nada do que acontece neste filme seria imprevisível ou impossível de ser congeminado por mentes racionais e coerentes, como era de esperar nos primeiros capítulos da saga, ou não se recordam de Dr No e Ordem Para Matar? O agente rebelde está armado apenas de um rádio minúsculo e uma arma com reconhecimento cuticular, o que lança logo no lixo o exagero de bugigangas típico dos capítulos mais exagerados de Moore e Brosnan. Aliás, fãs dessas iterações ficarão desapontados. Skyfall bem alude aos elementos mais fantásticos da saga (Silva habita numa ilha abandonada no Pacífico Asiático), mas “espetáculo por espetáculo”, isso é inexistente.

Aliás, quero deixar bem claro o quanto eu defendo a decisão de retratar a ação neste filme com um realismo controlado que há muito não se via e quanto bem executado, supera qualquer câmara à mão ou CGI. A ação é tanto superior, como mais bem filmada que qualquer capítulo de outras sagas concorrentes; os tiroteios, principalmente no cerco climático no meio de nenhures, não são entusiasmantes para adolescentes, mas sim abruptos e sem piedade, como se pede com qualquer mostra de violência; todo o terceiro acto do filme reúne alguma da melhor cinematografia e momentos de ação da velha guarda que se poderia desejar, inclusive um morte do vilão típica de Bond. Aqui eu realmente desejava um confronto talvez mais duradouro entre protagonista e antagonista, mas a série sempre se destacou, fora Goldeneye, por retratar os seus confrontos climáticos com especial leveza e até desprezo, no que toca à consideração do agente secreto pelo inimigo. Mas mesmo assim Skyfall consegue subverter um pouco as regras, apostando em mostrar nos momentos finais de Silva uma carga emocional que faz dele tanto vilão quanto vítima e pedimos que seja liberto do seu sofrimento.

O grande brinde do filme está mesmo no argumento, que não sendo inovador, mostra um maravilhoso jogo de pulso no modo como oscila entre Bond estar a envelhecer e tornar-se uma antiguidade e o não conseguir aceitar novamente perder a sua figura maternal com uma subtileza que nos faz esquecer estarmos a ver quase duas aventuras diferentes. John Logan sagra-se por ter apresentado, não o mais original, mas a melhor história de Bond em 50 anos de existência da saga: o herói é imperfeito, o seu desafio é impossível, o seu inimigo superior, e o motivo é completamente egoísta – ser amado pela mãe – e mesmo assim não consegue obter o “Santo Graal”, salvar o dia, sem o sacrifício absoluto que fará dele o agente que tão bem conhecemos. Não há finais felizes, mas há finais perfeitos, e o deste filme acaba por ser um bom recomeço para a saga.

Sente-se que este é o filme perfeito para apresentar 007 a uma nova geração de fãs que conseguiu encontrar forma de manter escondido do público que Skyfall pode funcionar como uma prequela. Os símbolos bem-amados de uma secretária provocadora, um diretor do MI-6 severo ou um engenhocas espevitado e pedante estão todos presentes. Se Skyfall erra, será talvez por não procurar apresentar nada de novo além dos lugares comuns do mundo de Bond, e sente-se talvez um ponto de completude de um circulo vicioso de onde este universo nunca escapará: os nomes, lugares e desafios acabarão por ser sempre os mesmos.

Mesmo assim, nas mãos de Mendes, Logan e Craig, podemos contar com um herói realista num universo maravilhosamente falso, tanto que esse é grande parte do conflito posto ao protagonista e seus companheiros, qual é a relevância de todo este jogo de intrigas, conflitos de bastidores e pesadelos da Guerra Fria numa realidade em que a informação está sob o poder do povo?


É o mais negro dos filmes 007? Sim. O mais pessoal? Confirma-se. Dinâmico? Sem dúvida. Original? Isso reservou-se para a saga de Connery. Esta é uma história que questiona que espécie de alma pode carregar no gatilho que salva os bons dos maus, posto em pratos limpos. O que está no engenho de um sociopata com carta-branca e porque escolhe estar ao Serviço de Sua Majestade e não de Si Próprio. John Logan conseguiu capturar o busílis da fórmula, não reinventá-la, mas encarregar Bond de ser assumidamente humano e não a criatura híbrida que vimos nos dois primeiros filmes de Craig.

Anúncios

Etiquetas:, ,

About ossosborea

Como nunca estive legalmente empregado, não posso dizer que estou a um passo do desemprego, mas só com o tempo livre presumido de alguém nesse estado poderia criar este espaço. Bem-vindos e demorem-se, espero que...

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

%d bloggers like this: