Pedaços do Festival do Estoril – Holy Motors

Há realizadores que filmam objetos. Há realizadores que filmam narrativas. Há outros que escolhem ideias. Há aqueles que tentam misturar os três. Muitos falham. Carax pode ter falhado, não o sei dizer.

De momento, estando o visionamento ainda demasiado fresco na minha mente, só posso transmitir o meu apelo a que Holy Motors seja visto.

Faço-o dizendo que se tem que procurar algum filme que aponte à humanidade uma existência de performance, e que no seio dessa experimentação mesmo assim consiga tornar clara uma narrativa trágica sobre a prisão existencial de um homem condenado a não experienciar a sua própria vida, este é o filme a ver.

Oscar é um ator, um performer, uma ferramenta de uma máquina universal que o coloca ao serviço de diferentes “marcações” onde cumpre diferentes papéis de sátira social, anarquia humana e introspeção espiritual.

A sociedade e os padrões humanos são vistos a olho de lupa neste projeto que isola diferentes condições desde o pai divorciado; o abominável das catacumbas; o escravo da era digital; o velho moribundo arrependido ou um macaco preso numa vivenda germinada, entre muitos outros. No seu todo é um leque de representações que aparentemente não tem nada em comum mas acabam por apontar que cada realidade humana não é mais que uma categoria a interpretar, e ao longo da nossa existência nunca nos sobra espaço para vivermos as nossas vidas no seio deste grande engenho universal sem nome. Vontade ou ironia universal?

Carax oferece um exemplar difícil, muito contestado pelo público na sala em que o vi. Apupos não se ouviram, mas risos de gozo e perfeita incredulidade perante alguns dos momentos mais inspirados e, bizarramente distantes do público, como o episódio do gnomo dos esgotos de Paris que ao som da banda-sonora de Gojira invade e rapta Eva Mendes no meio de uma sessão fotográfica ao serviço da estética ocidental, apenas para a transformar numa companheira balaústre do Islamismo, modelo de passadeira para as novas coleções Outono-Inverno de turbante, foram muitos.

Pobre Kylie Minogue encontrou no seu episódio revelador e de lastimável tragédia muito pouco aceitação do público. Não deixou de ser dos momentos mais coerentes, a ponta de um icebergue que pedia mais magia e menos…distância.

Mesmo assim é maravilhoso, discordante, confuso e subliminar. No seio de tantos comentários sociais, vem ao de cima a história de um homem preso em performances. Denis Lavant é uma máquina, um executante de uma abrangência assustadora, quase robótico na sua perfeição.

Em Holy Motors, o ser humano é uma roldana no motor divino, e existências são sinónimos de profissões, pois por muitas máscaras que use, Monsieur Oscar é tanto um banqueiro, assassino ou pedinte como uma ferramenta sem nome e espaço para apreciar a sua própria existência. O que lhe resta é a segurança no interior da limusine, apreciar o mundo à janela e os cigarros que asseguram o cancro emocional que nos consome a todos. Carax determina que não podemos ser mais que espetadores num jogo em que usar uma máscara é regra universal e os momentos trocados entre os atores/humanos são tão reais como cenas num guião divino.

Mas o grande mérito neste filme está na introspeção emocional, e realmente devastadora, que causa ao aplicar uma perspetiva assustadoramente pessoal numa tela nada objetiva. O filme não deixa de ter as batidas certas e será discutível se há um enredo, ou apenas um conjunto de ideias conceptualizadas, mas fora essa ambiguidade narrativa, Carax vence-nos com uma crítica social, humana, um apontar o dedo a nós próprios como espetadores que não deveriam estar naquela sala de cinema pois a felicidade é uma ilusão se continuar restrita ao “grande ecrã”.

Lamentável e sombrio, mas completamente necessário, não é para mas deveria ser visto por todos, nem que seja para despoletar uma necessidade primária de mudança.

Se é pouco mágico ou visualmente rico, revela-se transcendente e penetrante nos símbolos manifestados, tanto mais contundente como uma pedra rolante que nunca encontrará um fundo em que aterrar.

Filipe Santos

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Como nunca estive legalmente empregado, não posso dizer que estou a um passo do desemprego, mas só com o tempo livre presumido de alguém nesse estado poderia criar este espaço. Bem-vindos e demorem-se, espero que...

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