Pedaços do Festival do Estoril – The Master

Paul Thomas Anderson retorna ao grande ecrã depois do magnífico There Will Be Blood. O que sobrou da mestria empregue nesse último filme chegou para alimentar o seu mais recente projeto, The Master?

Sim, é um trabalho quase excelente. Assustador superficialmente, belo e trágico quando se passa a barreira invisível.
Aqui Joaquim Phoenix é Freddie Quell, um veterano de guerra alcoólico e um animal fodilhão, verdadeiro sociopata, sem outra forma de expressão senão embebedar-se, alimentar o desacato e procurar onde deixar a sua semente, encontra uma espécie de paz e combate o ódio interno ao deparar-se com os ensinamentos messiânicos de Lancaster Dodd, um incrível e prototípico estandarte da velha elite intelectual americana e falso profeta que usa um modelo de culto, A Causa, para guiar o seu rebanho até à terra prometida da felicidade. Dessa amizade pode tanto surgir a completude, como a autodestruição. O fundamental é que se torna evidente o nível de ridículo a que chegamos ao fazermos de tudo para sermos felizes menos atrevermo-nos a procurar as respostas em nós próprios.

Pode trazer dores de cabeça a um espetador habituado a um ritmo mais animado e não preparado para lidar com a contemplação de Dodd ou o olhar distante, mas magnético a meu ver, de Anderson em relação à ação. Aos restantes, ficaremos gratos por esta obra, que é de facto uma obra – diga-se um filme sério, com propósito, tema e cuidado em todos os seus constituintes – em que o realizador se revela um mestre a iludir-nos com símbolos de amor, amizade, homossexualidade escondida e até a crença na reencarnação.

As interpretações serão muitas, as respostas sempre subjetivas, mas torna-se quase dogmático que os opostos não se atraem, antes são simbióticos, duas faces de uma mesma moeda. Quell e Dodd não são mais que duas versões do mesmo ser universal, neste apontamento sobre o sofrimento humano em adaptar-se a uma condição social.

Aqui as bebedeiras, as bulhas e as angústias amorosas são tão naturais como a respiração irregular de um cão moribundo. O homem está a caminhar para a sua morte e não encontra a resposta em fatos de linho, palestras de auto ajuda ou sequer no álcool, tudo isto são meras distrações. Há uma consciência muito poderosa no argumento deste filme, tão poderosa que se dá ao trabalho de escolher ignorar apresentar uma estrutura evidente, antes deixar-nos saborear um percurso natural, uma respiração narrativa, visceral.

Os atores estão brilhantes, ao ponto de ser quase um insulto amealharem oscares. O filme permanecerá na memória de todos para nos recordamos do exemplar a seguir no que toca a interpretações emersas e por louco que soe, superiores às de qualquer outro filme de Anderson.

Talvez o seu ultra-realismo seja importuno para alguns, e a estrutura subliminar pareça demasiado subtil, inexistente a olhos destreinados, mas garanto-vos que está lá, e a história é tão uma busca de felicidade como uma trágica constatação de que não há resposta certa nesta vida.

Um pedaço de história, dos confusos e desorientados anos 50, da perene condição perdida do “bom” selvagem. A cinematografia é mais que imagem-movimento, mas um conjunto de quadros retirados de uma década de sonho e pesadelo.

Este é um filme a sério, dos mais belos, realistas e maravilhosamente representados sobre uma angústia que infelizmente, nunca será ultrapassada, pois as respostas não existem ainda. Ou como diz Dodd “If you find a way to live without serving a master, let the rest of us know”.

Aqui o Mestre é o ideal social, e a amizade um vínculo de angústia entre duas entidades que existem em simultâneo, partindo do mesmo ideal de pessoa. Não admira que Dodd não se consiga recordar de onde conhece Quell. Reconhecermos os nossos defeitos é sempre doloroso, e força-nos a seguir por caminhos de ilusão, ludíbrios, e afinal de contas, viver segundo credos ignorantes num mundo de ignorância.

Pessoal como se quer, abrangente como se teme, fica aqui o aviso de que fará chorar aqueles que aceitam chorar no cinema. Aqueles que muitas vezes ao olharem-se ao espelho não se conseguem recordar o próprio nome.

Filipe Santos

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Como nunca estive legalmente empregado, não posso dizer que estou a um passo do desemprego, mas só com o tempo livre presumido de alguém nesse estado poderia criar este espaço. Bem-vindos e demorem-se, espero que...

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