Crítica “Matá-los Suavemente”

Os Idiotas

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Matá-los Suavemente é não só sinónimo de magnífico formalmente, com a sua excelente e objetiva estrutura linear de multiprotagonismo e uma cinematografia brilhante - destaque-se um particular assassinato em câmara lenta ou a tripe existencial e literal de Russell (Ben Mendelsohn) um drogado satírico que despreza tudo e todos, até a própria esperança de ser feliz – como também um magnífico manifesto contra a decadência moral e social em que caímos, fruto de uma sociedade demasiado dependente de regulações capitalistas.


Não esperem motivações profundas, objetivos transformadores de um protagonista dilacerado emocional e fisicamente ao longo de uma jornada iluminadora ou um retrato esplendoroso e estiloso do mundo criminoso. O filme serve um prato frio de realismo através de uma lupa que nos permite constatar as dificuldades relacionáveis de criminosos presos numa recessão financeira e emocional. Jackie Coogan (Brad Pitt), chega à cidade para comandar um ajuste de contas contra três idiotas responsáveis pelo assalto a um jogo de cartas da Máfia (presume-se). A intransigência de um novo corpo de “diretores” do sindicato criminal para quem trabalha, demasiado em sintonia com os rigores da competição regulada e uma sociedade completamente vidrada na imagem pública, torna o seu trabalho muito mais difícil, que é o de eliminar Markie (Ray Liotta), Frankie (Scott McNairy) e Johnny “Squirrell” Amato (Vincent Curatola).

Ao longo deste percurso fatalista de mortes, tanto de vítimas e culpados do assalto, Coogan e todos os outros enfrentam a realização de o mundo estar entregue aos bichos e a sobrevivência depender implícita e obrigatoriamente não do indivíduo somente, mas do canibal. Elementos temáticos tão drásticos como este são ainda mais trabalhados por momentos de introspeção reveladores, reservados a cada um dos personagens mais relevantes, o que evidencia a intenção crítica de Dominik em retratar e comentar a crise por que passamos. Poderá deixar almas mais sensíveis com uma lágrima no canto do olho. Eu próprio não pude evitar sentir solidariedade para com Mickey (James Gandolfini), um assassino profissional em fim de carreira, arruinado pelo álcool e pelo amor e que não sabe mais como lidar com a sua insignificância.


Dominik argumenta que aos justos não sobra nada, e conforme Coogan conta o pagamento por cada uma das cabeças cortadas e se queixa do salário de recessão que lhe foi atribuído, vê-se forçado a relembrar Driver (Richard Jenkins) da realidade da situação à sua volta, à nossa volta: estamos por conta própria.

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Como nunca estive legalmente empregado, não posso dizer que estou a um passo do desemprego, mas só com o tempo livre presumido de alguém nesse estado poderia criar este espaço. Bem-vindos e demorem-se, espero que...

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