Crítica “Matá-los Suavemente”

Assim ficamos

Assim ficamos

Acompanhando ao longo de todo o filme o processo quase etéreo e absolutamente fatalista, das eleições norte-americanas que “salvaram” esse país, somos expostos à crua verdade que é realçada pela imagem fria, os espaços apodrecidos e a solidão crescente dos protagonistas, e sabemos do início ao fim ao observamos o esgar sem esperança de Frankie, críamos este futuro para nós próprios. Se a tripe de Mendelsohn (momento cinematográfico definitivo no que toca a metáforas) serve para algo mais que nos deixar encantados com o seu tratamento de luz sublime, é para nos pintar um retrato daquela que foi a atitude de toda uma sociedade durante a iminente intempérie que se apossou do mundo. Que nem sonâmbulos conhecíamos o caminho que estávamos a percorrer e nada fizemos para mudar de rumo senão dormir.
A decadente moral social não tem lugar no mundo de Coogan, disposto a tudo para cumprir o seu trabalho, a usar e matar qualquer um, a enviar um amigo do peito para a prisão para se livrar de pontas soltas, mas nunca negar uma empregada da sua gorjeta. Até o assassino impiedoso do mundo, com o seu cabelo formoso mas sem vida, o seu casaco de cabedal negro e os seus olhos gelados, figura tipo de uma alma penada escarrada pela Morte para espalhar a sua palavra, consegue reconhecer o valor do sacrifício.
No fim de contas, alguns têm que sofrer pelo benefício dos muitos, mas foi assim que fomos criados, segundo o ideal do mercado livre, do negócio de relações e da sobrevivência individual a custo global.
O consenso, quando saírem da sala de cinema, penso eu, será o de que não há hipocrisia que esconda as palavras finais de Coogan. Não as vou repetir aqui para não vos roubar o prazer do melhor final do ano, mas preparem-se, aqueles que não estão dispostos a ser roubados da esperança ou não tem coragem de constatar a verdade bruta, Matá-los Suavemente não é um filme de acção, não é um drama, não é um thriller, não é um filme apenas, é um despacho enviado pela Sétima Arte para nos avisar de que estamos sozinhos, prestes a enterrar-nos em sepulturas cavadas por nós próprios. Ora aí está o busílis da questão, morrer suavemente, na ignorância, que nem ovelhas.
Como se pede da arte, intervêm e haverá muita gente mal-agradecida por isto.

Filipe Santos

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Como nunca estive legalmente empregado, não posso dizer que estou a um passo do desemprego, mas só com o tempo livre presumido de alguém nesse estado poderia criar este espaço. Bem-vindos e demorem-se, espero que...

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