Crítica “Snake In The Eagle’s Shadow”

A meu ver, o grande falhanço deste filme é não saber equilibrar as exigências de um género híbrido – artes marciais humorísticas – com uma simples linearidade narrativa. É que a história está presente, sim, e é até bem simples de se compreender, agora o tempo gasto, mesmo desperdiçado, a apresentar-nos sequências slapstick sem progressão narrativa ou os infinitos diálogos expositivos que forçam os personagens a assumir um caminho obrigatório, e não a evoluir naturalmente, perturbaram-me e deixaram-me incapaz de o aceitar como algo mais que uma sequência de propaganda de diferentes escolas de artes marciais acabadinha de chegar de Hong Kong.

Aquilo é uma peruca.

Onde está a peruca?

Tudo isto não justifica afirmar que o filme seja mau, longe disso, porque continua, apesar das suas fraquezas, a executar todos os pressupostos básicos do entretenimento: cinética, diversão e espetáculo ligeiro. Na verdade, eu não pude conter a minha diversão ao ver os combates fenomenais (atenção ao incrível combate final entre Fu e Sheng) ou ao detetar elementos que influenciaram alguns dos filmes da minha infância como o mentor mendigo, o vilão maquiavélico que serviu de referência a clássicos de videojogos e animes, e o protagonista frágil com potencial para se tornar meta-humano. Chien Fu, o personagem de Chan, apesar de desnudado de qualquer propósito dramático lógico, é magnético. Agora, apesar de Jackie ser uma mais-valia, há problemas que tornam Snake In The Eagle’s Shadow um avô problemático para o género. O tempo não foi caridoso para esta obra que apadrinhou grandes filmes, consequentemente muito melhores. Tem uma edição falhada, mau uso da banda-sonora e o anacronismo das artes marciais é suplantando apenas por uma quase inexistente viagem do herói. Estou a referir falhas que trespassam tanto o foro técnico como criativo.

Tenham em conta que se trata de um sucesso internacional na altura. Este foi o filme que salvou Chan da obscuridade depois do falhanço em transformá-lo no novo Bruce Lee, tendo os produtores até então subestimado o seu caráter como humorista e defendido que deveria assumir uma postura mais severa, séria, como o falecido protagonista de eleição do cinema de artes marciais.

Snake catapultou o ator para o estrelato internacional e apesar de um ou dois projetos mal encaminhados em territórios norte-americano no início da década de 80, Chan consagrou-se como um absoluto no panorama de Hong Kong.

Agora, se Chan é intemporal, já o filme que o lançou acaba por ficar aquém desse estatuto. É sempre arriscado para um crítico, um espetador, o que seja, abordar um clássico de um género predileto numa fase já avançada da sua cultura cinematográfica. Muitas vezes conseguimos perdoar os erros tácitos (e graves até) de filmes que esperávamos que consagrassem o nosso gosto e o elevassem. Algumas das vezes, esse não é o caso. Os clássicos falham-nos. Esta experiência não deveria ser mais que um reconhecimento dos conceitos e elementos que foram lançados, desenvolvidos e evoluíram ao ponto de serem digeridos por nós como os avatars de um género, uma espécie de tirar o chapéu às origens. Agora, quando não conseguem atingir o nível de apreciação que os seus “descendentes” nos trouxeram, para mim acabam sempre por pairar na categoria de lembranças ingénuas, pinturas rupestres.


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Como nunca estive legalmente empregado, não posso dizer que estou a um passo do desemprego, mas só com o tempo livre presumido de alguém nesse estado poderia criar este espaço. Bem-vindos e demorem-se, espero que...

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