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Crítica “Snake In The Eagle’s Shadow”

Ataque da língua bífurcada

Ataque da língua bifurcada

Foi enternecedor para este humilde crítico visitar pela primeira vez um clássico do género de artes marciais saído de Hong Kong, neste caso SNAKE IN THE EAGLE’S SHADOW, de Yuen Woo Ping, o primeiro filme do realizador veterano e uma porta de lançamento para a estrela mundial até então um completo desconhecido, Jackie Chan.
O filme é um falhanço como narrativa cinematográfica, mas um glorioso trofeu do cinema de artes marciais em que se encaixa e pioneiro para a narrativa adolescente que viria a inspirar grandes clássicos homéricos dos anos 80 como The Karate Kid ou The Last Dragon. Infelizmente, Ping não é um realizador com sensibilidade narrativa antes, muito mais emotivo do que posso considerar positivo, visto sufocar muitas vezes os momentos de progressão dramática com adereços maniqueístas e angústias adolescentes em detrimento de desenvolver quaisquer personagens interessantes.
A narrativa, se é que pode ser assim chamada e vou tentar embelezá-la para não vos deixar a chorar, apresenta-nos a Chien Fu (Chan), um pupilo sem jeito e contínuo numa academia de artes marciais de segunda categoria que após anos a ser espezinhado pelos mestres (uma dupla humorística…aparentemente), forma amizade com Cheng-Tien (Siu Tien Yuen), um estranho mendigo mestre do estilo da Cobra que se encontra em fuga do ambicioso Lorde Sheng Kuan (Jang Lee Hwang), o perigoso rival e mestre do estilo Águia. Ao aprender a arte da Cobra através da sua amizade com Cheng-Tien, o jovem Fu torna-se um lutador letal e dá por si arrastado para este conflito entre as duas escolas. Para salvar a vida do seu mestre, terá que no entanto desenvolver o seu próprio estilo, enquanto descobre pela primeira vez o valor da amizade…dizem eles.
Pronto, o tempo que demorou a ler esta premissa corresponde ao tempo gasto no filme em verdadeiros desenvolvimentos dramáticos. Interpretem isso como preferirem, podem não estar à procura de uma obra complexa ou de um drama de artes marciais.

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Crítica “Matá-los Suavemente”

O Homem de Preto

O Homem de Preto

Que muitos filmes chegassem às salas com a qualidade que Matá-los Suavemente trás. Depois de acompanhar o processo de produção do filme como qualquer outro fã de Andrew Dominik, estava com boas expetativas em relação ao que se avizinhava. O Assassinato de Jesse James Pelo Cobarde Robert Ford foi um trabalho aquém da mestria do realizador, o génio por detrás de Chopper, mas a minha confiança na sua capacidade permaneceu ferrenha.
Até que a crítica estrangeira deu a sua opinião. Este retrato sórdido, imparcial e fatalista do realizador Australiano, produzido por Brad Pitt, seria bom, está certo, mas a sua determinação em ignorar pressupostos de redenção ou arcos de personagem faria deste seu último filme uma obra demasiado “distante” e “severa” para ser aceite pela generalidade.
Posto isso, influenciável como sou fiquei com medo de não passar o melhor bocado possível no cinema. Depois de uma sessão em que fui ameaçado de ser expulso por comer na sala decidi voltar a ver o filme uma segunda vez, para forçar a minha mente a encarar esta obra como algo de diferente ao que tinha testemunhado. Quis obrigar-me a mim próprio a interpretar o filme como algo que não uma obra de arte. Este não poderia ser o melhor filme do ano. Esta produção humilde, adaptação quase linear e escassamente ambiciosa, com um elitismo temático e completa desconsideração pelo público não poderia roubar os louros de EXCELENTE a outras obras prometidas.
Antes fosse que todos os outros indie’s modestos que nos chegam de mansinho pudessem ter a sua qualidade.

Crítica “Breaking Dawn Part 2”

Lamento a demora mas o cinema é mais barato à quarta-feira…


Terminei a mais recente saga de adaptações young-adult (sinónimo: literatura mansa) de fantasia. Twilight é conhecido mundialmente por trazer novo fôlego ao conceito do vampiro como uma personagem de ficção a explorar, romantizar e tornar apelativa novamente.
Este renascimento implicou transformar esta criatura habitualmente concebida como monstruosa, ou tragicamente bela, num ser puramente estético segundo padrões de moda e um ícone dos corações de milhões de adolescentes e donas de casa desesperadas. Esse mesmo ícone dos sonhos românticos também teve sucesso ao atormentar a mente de gente sã, coerente e acima de tudo, em devastar os mais puristas ao conseguir destruir todo o legado erguido por grandes como Bram Stoker, Rice, Murnau e Browning.
Isto porquê? Porque subverteram e modificaram alguns dos atributos mais característicos dos bebedores de sangue? Os vampiros podem brilhar, meus amigos. Afinal, são figuras lendárias, não tem existência factual…é só bastante piroso ver isso acontecer.
Não, apenas porque representam elementos fantásticos com uma proximidade demasiado facciosa, e claramente submissa a romantismos populares e padrões adolescentes.
Claro que o último capítulo desta triste saga teria que acabar em rigor com o material de base, um festival de pirosice, má escrita e corpos exangues.

Pedaços do Festival do Estoril – The Master

Paul Thomas Anderson retorna ao grande ecrã depois do magnífico There Will Be Blood. O que sobrou da mestria empregue nesse último filme chegou para alimentar o seu mais recente projeto, The Master?

Sim, é um trabalho quase excelente. Assustador superficialmente, belo e trágico quando se passa a barreira invisível.
Aqui Joaquim Phoenix é Freddie Quell, um veterano de guerra alcoólico e um animal fodilhão, verdadeiro sociopata, sem outra forma de expressão senão embebedar-se, alimentar o desacato e procurar onde deixar a sua semente, encontra uma espécie de paz e combate o ódio interno ao deparar-se com os ensinamentos messiânicos de Lancaster Dodd, um incrível e prototípico estandarte da velha elite intelectual americana e falso profeta que usa um modelo de culto, A Causa, para guiar o seu rebanho até à terra prometida da felicidade. Dessa amizade pode tanto surgir a completude, como a autodestruição. O fundamental é que se torna evidente o nível de ridículo a que chegamos ao fazermos de tudo para sermos felizes menos atrevermo-nos a procurar as respostas em nós próprios.

Pode trazer dores de cabeça a um espetador habituado a um ritmo mais animado e não preparado para lidar com a contemplação de Dodd ou o olhar distante, mas magnético a meu ver, de Anderson em relação à ação. Aos restantes, ficaremos gratos por esta obra, que é de facto uma obra – diga-se um filme sério, com propósito, tema e cuidado em todos os seus constituintes – em que o realizador se revela um mestre a iludir-nos com símbolos de amor, amizade, homossexualidade escondida e até a crença na reencarnação.

As interpretações serão muitas, as respostas sempre subjetivas, mas torna-se quase dogmático que os opostos não se atraem, antes são simbióticos, duas faces de uma mesma moeda. Quell e Dodd não são mais que duas versões do mesmo ser universal, neste apontamento sobre o sofrimento humano em adaptar-se a uma condição social.

Aqui as bebedeiras, as bulhas e as angústias amorosas são tão naturais como a respiração irregular de um cão moribundo. O homem está a caminhar para a sua morte e não encontra a resposta em fatos de linho, palestras de auto ajuda ou sequer no álcool, tudo isto são meras distrações. Há uma consciência muito poderosa no argumento deste filme, tão poderosa que se dá ao trabalho de escolher ignorar apresentar uma estrutura evidente, antes deixar-nos saborear um percurso natural, uma respiração narrativa, visceral.

Os atores estão brilhantes, ao ponto de ser quase um insulto amealharem oscares. O filme permanecerá na memória de todos para nos recordamos do exemplar a seguir no que toca a interpretações emersas e por louco que soe, superiores às de qualquer outro filme de Anderson.

Talvez o seu ultra-realismo seja importuno para alguns, e a estrutura subliminar pareça demasiado subtil, inexistente a olhos destreinados, mas garanto-vos que está lá, e a história é tão uma busca de felicidade como uma trágica constatação de que não há resposta certa nesta vida.

Um pedaço de história, dos confusos e desorientados anos 50, da perene condição perdida do “bom” selvagem. A cinematografia é mais que imagem-movimento, mas um conjunto de quadros retirados de uma década de sonho e pesadelo.

Este é um filme a sério, dos mais belos, realistas e maravilhosamente representados sobre uma angústia que infelizmente, nunca será ultrapassada, pois as respostas não existem ainda. Ou como diz Dodd “If you find a way to live without serving a master, let the rest of us know”.

Aqui o Mestre é o ideal social, e a amizade um vínculo de angústia entre duas entidades que existem em simultâneo, partindo do mesmo ideal de pessoa. Não admira que Dodd não se consiga recordar de onde conhece Quell. Reconhecermos os nossos defeitos é sempre doloroso, e força-nos a seguir por caminhos de ilusão, ludíbrios, e afinal de contas, viver segundo credos ignorantes num mundo de ignorância.

Pessoal como se quer, abrangente como se teme, fica aqui o aviso de que fará chorar aqueles que aceitam chorar no cinema. Aqueles que muitas vezes ao olharem-se ao espelho não se conseguem recordar o próprio nome.

Filipe Santos

Crítica “Skyfall”

Um personagem responsável por alguns dos melhores momentos da minha infância também foi responsável muitas vezes por quebrar o meu coração. Desde o espetacular Goldeneye, com alguns momentos de inspiração pelo meio (os dois primeiros filmes de Craig), que a saga me tinha deixado completamente desiludido. O que encontrei nesta abordagem de Sam Mendes, um realizador que se pouco me cativa narrativamente, sempre me encantou com a sua sensibilidade visual?

Uma fuga muito apreciada a uma degeneração pipoqueira da saga mais longa do cinema de ação. Não há cá planos inexplicavelmente malévolos, super-vilões, conglomerados do crime, ou novas ordens mundiais. O que há é um ex-agente rancoroso a tentar destruir o legado de M, a morte dos dias da espionagem. Um agente ultrapassado, alcoólico e chauvinista é o único no caminho para preservar os velhos costumes.

Skyfall é um filme legítimo de James Bond e muito mais. Aqui a história gira em torno de um herói muito mais trágico do que estamos habituados a ver (mesmo depois da morte de Vesper Lynd). Bond, um patriota sociopata e treinado para matar foi abandonado e deixado como morto às ordens de M, a sua comandante, que desespera cada vez mais ao encontrar-se na mira quer de um Governo burocrata que procura eliminar um conceito de serviços secretos que já não funciona num mundo globalizado, quer de um perigoso ex-agente rancoroso, o assustador Silva (Javier Bardem), a ovelha mais negra da família. Cabe a Bond, outra vítima dessa mãe distante e um ser estranho e ultrapassado neste mundo violentamente tecnológico, salvá-la das intempéries, senão em nome da pátria, em nome de si próprio. Por vezes os filhos têm dificuldade em dizer adeus, principalmente quando estão armados e treinados para matar.

A ação é violenta e bela, as Bond Girls cativantes, e o argumento sobrevive aos piores críticos tanto em termos de estrutura e alma.

Pode não ter a introspeção de Bourne ou o espetáculo elaborado de Missão Impossível, nem ser sequer o patamar mais elevado em termos de diversão, mas é o mais maduro deste panorama de filmes, verdadeiramente uma obra de cinema. Um 007 decididamente cuidado, um jogo de ação em torno de um personagem que se por vezes fraquejou em termos de complexidade ao longo dos anos, consagra-se neste filme como o definitivo agente secreto, e um marco no cinema naquele que poderá ser um retorno à idade adulta do género.

Skyfall é o melhor 007 de sempre.

Para quem procura uma análise mais prolongada e com algumas revelações…

Frankenweenie

Estava enganado quando iniciei e terminei a primeira versão desta crítica. Enxovalhava as intenções de Tim Burton com a mesma hermenêutica de um escolástico moralista, nada diferente da ignorância demagoga que Burton crítica no seu filme. Frankenweenie não deixa de ser um trabalho com falhas a nível narrativo, no sentido de que o próprio Burton, como criador, não procura compreender os dois lados desta moeda – a consequência das intenções ingénuas da juventude.

Decidi voltar atrás após discussão com a minha predileta adversária de conversas sobre cinema e, provando estar enganado, realmente encontrei mais força vital neste filme, uma intenção pura em simular a angústia da infância e a procura última da felicidade, do que julgava. Tudo isto levou-me a reconsidera-lo e aprovar a meus olhos Frankenweenie como o melhor filme do realizador caído em desgraça, desde A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça (1999).

Devo agradecer a Tim Burton por nos relembrar Harryhausen, Price, Wood, Browning, Lugosi e Mary Shelley, desenhos-animados de sábado de manhã e todos os serões de matiné da Universal. É coração e animado, amor de criança e cinema puro e cego de acolher o amor juvenil.

Infelizmente essa cegueira pode ser contaminante e negar às crianças uma aprendizagem, porque se sente que no fim do filme, apesar das reviravoltas, o peso ético de se manipular a vida e a morte não afetam verdadeiramente o protagonista, Victor Frankenstein. Mas talvez para Burton, e para muitos de nós, a viagem seja mais importante que o destino. Talvez o que conte mesmo seja a amizade eterna entre um rapaz e o seu cão e não a fixação doentia de se permanecer preso à infância.

Victor Frankenstein (Charlie Tahan), um jovem engenhocas cujo melhor amigo é o seu cão Sparky, consegue trazê-lo de volta a vida depois de um infeliz atropelamento através da influência do seu agreste, mas bem-intencionado, professor de ciências, o maravilhoso Mr Ryzkruski (Martin Landau). Infelizmente o retorno do adorável Sparky vai gerar uma corrida competitiva com os seus colegas de turma, um grupo macabro de estudantes que fará de tudo para vencer Victor no concurso da feira de ciências da escola, mesmo que implique roubar a fórmula de Victor e criar as suas próprias experiências. Mas quando estas não são feitas com amor, o resultado será catastrófico, e cedo há uma legião de monstros à solta por New Holland, cabendo a Victor salvar o dia. Lá pelo meio um cão morto-vivo faz-nos rir e estereótipos de John Candy’s infantis, japoneses competitivos e um Boris Karloff adolescente deixam os fãs de lágrima no canto do olho. Apesar de tudo, quando o filme termina, o legado da série B revela-se morno, pois esquece-se daquilo que destacava os filmes que o inspiraram (Dracula, Frankenstein, The Invisible Man) da ramboia execrável da época – uma consciência ética.

No entanto as vozes estão fabulosas, a comédia é inofensiva e os elogios são muitos e de respeitar, principalmente quando todos os monstros clássicos marcam presença e a estética de cemitério Expressionista de Burton parece brilhar. A crítica social pode ser demasiado preto e branco (sim, literal e figurativamente) e a lição do dia ignorar a ética em nome da felicidade, mas porque não? Talvez falte um pouco mais de egoísmo a toda a gente para se poderem compreender, não? Burton pode ter encontrado uma resposta filosófica à tirania do altruísmo.
O realizador favorito que parece ter quebrado corações nos últimos anos está de volta, mas a meio gás. Quando antes tínhamos o perigo dos desejos de Os Fantasmas Divertem-se e a ironia trágica da determinação de Ed Wood, até a fixação destrutiva tornada justiceira de Batman, agora temos a manipulação da natureza em nome da felicidade e…só isso. Burton perdeu noção do significado de consequência. Lá alude durante o filme, lá faz promessa de que irá cumprir, mas tudo o que temos é uma tentativa nostálgica de reviver a infância e nunca crescer. O que Burton não pode esquecer é que nós sempre o amamos enquanto criador, ou pelo menos eu. Nem que seja um amor de criança, ingénuo, farto e, no fim de contas, ignorante, como o próprio filme se revela.
Bom para miúdos e graúdos que não queiram esquecer a infância.

Segue-se uma análise mais detalhada se quiserem ler…

Looper

Olha-te ao espelho

Looper chegou, o tão anunciado Messias da ficção científica do século XXI, a segunda vinda de Blade Runner. Menos angustioso que Primer, mais embrutecido que Moon, encontra-se mais próximo do filme de Duncan Jones por ser muito mais um drama com elementos de sci-fi do que um filme integral de ficção-científica.
A história é completamente clássica, a viagem de Joe (Joseph Gordon-Levitt), um “looper”, um assassino profissional encarregado de eliminar alvos do futuro que acaba por se deparar com uma vítima que é o seu Eu Futuro e que, infelizmente, deixa escapar, colocando-se na mira do sindicato criminoso para quem trabalha.

O universo é do mais pessimista e atenciosamente realista que podíamos pedir: no mundo de Looper a telekinese é uma mutação inútil e apta apenas para truques de engate; a cisão entre ricos e pobres criou um fosso impossível de passar; a poluição é dominante, sendo o smog um adereço habitual nas metrópoles; as drogas estão à disposição de todos; a economia atingiu níveis de inflação tormentosos; a população é maioritariamente pobre e há uma epidemia de vagabundos e miséria que torna o homicídio em defesa da propriedade completamente justificável.
Agradável, não? O mais assustador é o filme conseguir imprimir tão bem a ideia de uma sociedade que se conseguiu adequar perfeitamente a esta realidade, que vive com desplante sensação de passividade, aceitando estas circunstâncias de caos residente como habituais. Em tempos de crise, a falta de contestação poderá contaminar todo o mundo e Johnson foi esperto a escolher representar não a possível revolução social, mas o perigo do hábito ao mal-estar que se torna cada vez mais comum na história da humanidade.