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Crítica “Breaking Dawn Part 2”

Lamento a demora mas o cinema é mais barato à quarta-feira…


Terminei a mais recente saga de adaptações young-adult (sinónimo: literatura mansa) de fantasia. Twilight é conhecido mundialmente por trazer novo fôlego ao conceito do vampiro como uma personagem de ficção a explorar, romantizar e tornar apelativa novamente.
Este renascimento implicou transformar esta criatura habitualmente concebida como monstruosa, ou tragicamente bela, num ser puramente estético segundo padrões de moda e um ícone dos corações de milhões de adolescentes e donas de casa desesperadas. Esse mesmo ícone dos sonhos românticos também teve sucesso ao atormentar a mente de gente sã, coerente e acima de tudo, em devastar os mais puristas ao conseguir destruir todo o legado erguido por grandes como Bram Stoker, Rice, Murnau e Browning.
Isto porquê? Porque subverteram e modificaram alguns dos atributos mais característicos dos bebedores de sangue? Os vampiros podem brilhar, meus amigos. Afinal, são figuras lendárias, não tem existência factual…é só bastante piroso ver isso acontecer.
Não, apenas porque representam elementos fantásticos com uma proximidade demasiado facciosa, e claramente submissa a romantismos populares e padrões adolescentes.
Claro que o último capítulo desta triste saga teria que acabar em rigor com o material de base, um festival de pirosice, má escrita e corpos exangues.

Pedaços do Festival do Estoril – Holy Motors

Há realizadores que filmam objetos. Há realizadores que filmam narrativas. Há outros que escolhem ideias. Há aqueles que tentam misturar os três. Muitos falham. Carax pode ter falhado, não o sei dizer.

De momento, estando o visionamento ainda demasiado fresco na minha mente, só posso transmitir o meu apelo a que Holy Motors seja visto.

Faço-o dizendo que se tem que procurar algum filme que aponte à humanidade uma existência de performance, e que no seio dessa experimentação mesmo assim consiga tornar clara uma narrativa trágica sobre a prisão existencial de um homem condenado a não experienciar a sua própria vida, este é o filme a ver.

Oscar é um ator, um performer, uma ferramenta de uma máquina universal que o coloca ao serviço de diferentes “marcações” onde cumpre diferentes papéis de sátira social, anarquia humana e introspeção espiritual.

A sociedade e os padrões humanos são vistos a olho de lupa neste projeto que isola diferentes condições desde o pai divorciado; o abominável das catacumbas; o escravo da era digital; o velho moribundo arrependido ou um macaco preso numa vivenda germinada, entre muitos outros. No seu todo é um leque de representações que aparentemente não tem nada em comum mas acabam por apontar que cada realidade humana não é mais que uma categoria a interpretar, e ao longo da nossa existência nunca nos sobra espaço para vivermos as nossas vidas no seio deste grande engenho universal sem nome. Vontade ou ironia universal?

Carax oferece um exemplar difícil, muito contestado pelo público na sala em que o vi. Apupos não se ouviram, mas risos de gozo e perfeita incredulidade perante alguns dos momentos mais inspirados e, bizarramente distantes do público, como o episódio do gnomo dos esgotos de Paris que ao som da banda-sonora de Gojira invade e rapta Eva Mendes no meio de uma sessão fotográfica ao serviço da estética ocidental, apenas para a transformar numa companheira balaústre do Islamismo, modelo de passadeira para as novas coleções Outono-Inverno de turbante, foram muitos.

Pobre Kylie Minogue encontrou no seu episódio revelador e de lastimável tragédia muito pouco aceitação do público. Não deixou de ser dos momentos mais coerentes, a ponta de um icebergue que pedia mais magia e menos…distância.

Mesmo assim é maravilhoso, discordante, confuso e subliminar. No seio de tantos comentários sociais, vem ao de cima a história de um homem preso em performances. Denis Lavant é uma máquina, um executante de uma abrangência assustadora, quase robótico na sua perfeição.

Em Holy Motors, o ser humano é uma roldana no motor divino, e existências são sinónimos de profissões, pois por muitas máscaras que use, Monsieur Oscar é tanto um banqueiro, assassino ou pedinte como uma ferramenta sem nome e espaço para apreciar a sua própria existência. O que lhe resta é a segurança no interior da limusine, apreciar o mundo à janela e os cigarros que asseguram o cancro emocional que nos consome a todos. Carax determina que não podemos ser mais que espetadores num jogo em que usar uma máscara é regra universal e os momentos trocados entre os atores/humanos são tão reais como cenas num guião divino.

Mas o grande mérito neste filme está na introspeção emocional, e realmente devastadora, que causa ao aplicar uma perspetiva assustadoramente pessoal numa tela nada objetiva. O filme não deixa de ter as batidas certas e será discutível se há um enredo, ou apenas um conjunto de ideias conceptualizadas, mas fora essa ambiguidade narrativa, Carax vence-nos com uma crítica social, humana, um apontar o dedo a nós próprios como espetadores que não deveriam estar naquela sala de cinema pois a felicidade é uma ilusão se continuar restrita ao “grande ecrã”.

Lamentável e sombrio, mas completamente necessário, não é para mas deveria ser visto por todos, nem que seja para despoletar uma necessidade primária de mudança.

Se é pouco mágico ou visualmente rico, revela-se transcendente e penetrante nos símbolos manifestados, tanto mais contundente como uma pedra rolante que nunca encontrará um fundo em que aterrar.

Filipe Santos

A Morte Necessária de Cloud Atlas

Épicos não conformistas que quebrem as regras em Hollywood estão aparentemente destinados a falhar. Este fim-de-semana Cloud Atlas teve uma estreia alargada nos Estados Unidos, carregava o rumor de “brilhantismo” e “excelência”, “inovação”, encabeçado por um elenco de luxo e uma direção talentosa, e mesmo assim o épico dos Wachowski Starship e Tom Tykwer parece ter encontrado um fracasso irremediável. Pelo domingo encontrava-se indeciso entre a 2ª e 3ª posição da tabela de top 10 dos EUA, com um rendimento de apenas 9.5 milhões de dólares, uma desgraça.

Isto é mau para quem o fez, não tem como pagar a renda, mas bom para quem ainda acredita na hipótese da originalidade persistir na indústria de entretenimento. Sem que um cataclismo elimine todos os produtos correntes que originam de Hollywood, a inovação terá que se manter subtil, reservada, ocasional, não uma constante. Senão, acabaria por ser extinta por completo.

Evil Dead, de Fede Alvarez

Fede Alvarez oferece o remake do mais amado filme de terror-culto de sempre.
Aqui temos, senhoras e senhores, o trailer red band para Evil Dead…e é glorioso.
De curtas-metragens para uma das longas mais aguardadas no género de terror.
Estará à altura do original?

Póster turco para The Master

Enquanto esta joia não estreia cá, deliciamo-nos com o póster turco, evocativo de Rosrcharch e um trabalho brilhante que deveria garantir a afluência do público.

Que mais se poderia pedir de uma campanha de marketing para um filme?

Mas porquê a referência visual? Trata-se de puro instrumento publicitário ou uma preocupação com a crítica direcionada aos personagens, aparentemente anti-homéricos e que negam as regras de protagonismo clássico?

O filme poderá existir aos olhos de cada membro da audiência com uma forma diferente? Qual é o direito da crítica à existência então senão interpretação?

Uma Fuga Perfeita

Deixem-me antes de mais esclarecer que Steve Zahn é um excelente actor. Estamos entendidos? Ok, seguindo em frente…

David Twohy regressou já há uns anos, antes de se lançar para a conclusão da sua trilogia Riddick recentemente, com esta homenagem ligeira e, deliciosamente divertida, a Hitchcock. Chamo-lhe Hitchcock por via de terapia para casais, uma nova tentativa de modernizar o thriller, um trabalho que estes anos, perdido entre a carga emocional dos falsos indies, os blockbusters formatados e as comédias sonâmbulas, se revela até, original na escolha de um formato quase esquecido: o thriller adulto, com protagonistas adultos, não direccionado a um público não pensante mas sim a apreciadores de cinema que o encaram como o veículo perfeito para arte-entretenimento.

Não estou a dizer que Uma Fuga Perfeita seja o filme perfeito de há três anos, longe disso. É apenas um filme esquecido, talvez ironicamente chega cá tarde demais, que vem trazer algum novo fôlego à remessa habitual de cinema produto, comercializado nos últimos vinte anos. O mesmo cinema de Hollywood que ignora heróis com idade superior a trinta anos, vilões assumidos, um público inteligente para lá dos maiores de 18 e uma trama que apesar de prestar juramento à estrutura clássica de oito sequências, não se prende na preguiça dos enredos supraexpositivos dos últimos anos. Um filme para adultos com consciência do género e abrangência sem insultar a inteligência do público. É uma lição de amantes de cinema sobre o cinema clássico, onde a representação conta tanto quanto a tensão emocional e as revelações carregadas de urgência, a tragédia sempre ao virar da esquina, mas acompanhada de mão dada com a possibilidade de um final feliz.

Aqui há um tema: o amor é tão destrutivo quanto salvador; mas não faz questão de guiar o público ao longo do enredo como se este se tratasse de uma criança de 5 anos. Antes regressa ao final da década de 1970, inícios de 1980, quando os últimos resquícios do cinema moderno, o cinema ambíguo e realista, ainda se poderiam encontrar no cinema de puro entretenimento. Lembram-se desses filmes, onde apesar da trama ser completamente previsível, conseguiam capturar a nossa atenção com um controlo perfeito da mise-en-scene e um ritmo dedicado à imagem-movimento como veículo de narrativa, o filme ao serviço da história, e não o contrário, aquilo que encontramos hoje em dia, infelizmente.

Para quem aprecia thrillers coesos, simples, e reforçados por personagens fortes, temas sinuosos e um jogo de reviravoltas conexo com a narrativa, então este é o vosso filme.

Ruby Sparks

Há muito pouco a criticar sobre este filme, do ponto de vista do vosso crítico preferido, senão o por vezes ter a sensação clara de que o filme se apoia demasiado em convenções clássicas de Hollywood: a visita à casa da mãe para apresentar a namorada; o irmão/melhor amigo/confidente/ comic-relief; o encontro mirabolante entre o protagonista e o seu santo graal pouco depois do ponto de viragem dos 15 minutos iniciais; e toda uma outra série de coisas.

Ruby Sparks não é mais que uma versão mais apurada e, talvez por infelicidade nossa, clássica de A Vida Interior de Martin Frost.

Não deixa de ser um grande filme, e superior ao referido em todos os aspectos menos num que deveria contar, a meu ver, mais que todos: a originalidade. Daqui destaca-se apenas o final ambíguo e vagamente depressivo.

E que outra maneira há de trabalhar o amor quando se procura honestidade?

Os que procuram um objecto de cinema que não seja mais que uma dispendiosa declaração de amor entre o casal de protagonistas podem ir antes comprar o bilhete para ver Sempre A Abrir (criticado há umas semanas…não melhorou desde então e odeio aquele poster enganador). Não, Ruby Sparks é antes uma análise ficcional da qualidade destrutiva do amor, o egocentrismo como bandeira da procura de companheirismo, e fá-lo com uma exactidão arrepiante, desde os momentos em que Calvin (Paul Dano) se queixa da sua miséria solitária, ao seu formular de um exemplar feminino, a chamada Ruby Sparks (Zoe Casan), que atenda sempre e só às suas necessidades e caprichos, o desinteressar eventual por ela quando cai no conforto da relação, o controlo obsessivo da lealdade e vontade do par. Todos estes elementos podem ser picotados e enviados por correio azul para a ilha dos amargurados.

Em termos de honestidade e verosimilhança, por muito conduzido que esteja por classicismos, este é um filme exemplar sobre relacionamentos.

A história é simples, Calvin é um escritor de sucesso a passar por uma frase pouco criativa, sofrendo de falta de inspiração, e ao satisfazer um exercício do seu psicólogo descreve a companheira perfeita, alguém que o tem atormentado num sonho, a procura da sua musa, guia, a Vénus fantasma. Ao fazê-lo, acaba por criar, por tornar manifesta, essa pessoa, essa bela dona, a mulher dos seus sonhos, eterna liberal e hipster incondicional com problemas de sustentabilidade emocional, Ruby Sparks. A mulher perfeita é sempre aquela chama que se revela mais quente que todas e um dia queimará o idiota que se atreva a dançar com o fogo.