Evil Dead, de Fede Alvarez

Fede Alvarez oferece o remake do mais amado filme de terror-culto de sempre.
Aqui temos, senhoras e senhores, o trailer red band para Evil Dead…e é glorioso.
De curtas-metragens para uma das longas mais aguardadas no género de terror.
Estará à altura do original?

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Póster turco para The Master

Enquanto esta joia não estreia cá, deliciamo-nos com o póster turco, evocativo de Rosrcharch e um trabalho brilhante que deveria garantir a afluência do público.

Que mais se poderia pedir de uma campanha de marketing para um filme?

Mas porquê a referência visual? Trata-se de puro instrumento publicitário ou uma preocupação com a crítica direcionada aos personagens, aparentemente anti-homéricos e que negam as regras de protagonismo clássico?

O filme poderá existir aos olhos de cada membro da audiência com uma forma diferente? Qual é o direito da crítica à existência então senão interpretação?

Frankenweenie

Estava enganado quando iniciei e terminei a primeira versão desta crítica. Enxovalhava as intenções de Tim Burton com a mesma hermenêutica de um escolástico moralista, nada diferente da ignorância demagoga que Burton crítica no seu filme. Frankenweenie não deixa de ser um trabalho com falhas a nível narrativo, no sentido de que o próprio Burton, como criador, não procura compreender os dois lados desta moeda – a consequência das intenções ingénuas da juventude.

Decidi voltar atrás após discussão com a minha predileta adversária de conversas sobre cinema e, provando estar enganado, realmente encontrei mais força vital neste filme, uma intenção pura em simular a angústia da infância e a procura última da felicidade, do que julgava. Tudo isto levou-me a reconsidera-lo e aprovar a meus olhos Frankenweenie como o melhor filme do realizador caído em desgraça, desde A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça (1999).

Devo agradecer a Tim Burton por nos relembrar Harryhausen, Price, Wood, Browning, Lugosi e Mary Shelley, desenhos-animados de sábado de manhã e todos os serões de matiné da Universal. É coração e animado, amor de criança e cinema puro e cego de acolher o amor juvenil.

Infelizmente essa cegueira pode ser contaminante e negar às crianças uma aprendizagem, porque se sente que no fim do filme, apesar das reviravoltas, o peso ético de se manipular a vida e a morte não afetam verdadeiramente o protagonista, Victor Frankenstein. Mas talvez para Burton, e para muitos de nós, a viagem seja mais importante que o destino. Talvez o que conte mesmo seja a amizade eterna entre um rapaz e o seu cão e não a fixação doentia de se permanecer preso à infância.

Victor Frankenstein (Charlie Tahan), um jovem engenhocas cujo melhor amigo é o seu cão Sparky, consegue trazê-lo de volta a vida depois de um infeliz atropelamento através da influência do seu agreste, mas bem-intencionado, professor de ciências, o maravilhoso Mr Ryzkruski (Martin Landau). Infelizmente o retorno do adorável Sparky vai gerar uma corrida competitiva com os seus colegas de turma, um grupo macabro de estudantes que fará de tudo para vencer Victor no concurso da feira de ciências da escola, mesmo que implique roubar a fórmula de Victor e criar as suas próprias experiências. Mas quando estas não são feitas com amor, o resultado será catastrófico, e cedo há uma legião de monstros à solta por New Holland, cabendo a Victor salvar o dia. Lá pelo meio um cão morto-vivo faz-nos rir e estereótipos de John Candy’s infantis, japoneses competitivos e um Boris Karloff adolescente deixam os fãs de lágrima no canto do olho. Apesar de tudo, quando o filme termina, o legado da série B revela-se morno, pois esquece-se daquilo que destacava os filmes que o inspiraram (Dracula, Frankenstein, The Invisible Man) da ramboia execrável da época – uma consciência ética.

No entanto as vozes estão fabulosas, a comédia é inofensiva e os elogios são muitos e de respeitar, principalmente quando todos os monstros clássicos marcam presença e a estética de cemitério Expressionista de Burton parece brilhar. A crítica social pode ser demasiado preto e branco (sim, literal e figurativamente) e a lição do dia ignorar a ética em nome da felicidade, mas porque não? Talvez falte um pouco mais de egoísmo a toda a gente para se poderem compreender, não? Burton pode ter encontrado uma resposta filosófica à tirania do altruísmo.
O realizador favorito que parece ter quebrado corações nos últimos anos está de volta, mas a meio gás. Quando antes tínhamos o perigo dos desejos de Os Fantasmas Divertem-se e a ironia trágica da determinação de Ed Wood, até a fixação destrutiva tornada justiceira de Batman, agora temos a manipulação da natureza em nome da felicidade e…só isso. Burton perdeu noção do significado de consequência. Lá alude durante o filme, lá faz promessa de que irá cumprir, mas tudo o que temos é uma tentativa nostálgica de reviver a infância e nunca crescer. O que Burton não pode esquecer é que nós sempre o amamos enquanto criador, ou pelo menos eu. Nem que seja um amor de criança, ingénuo, farto e, no fim de contas, ignorante, como o próprio filme se revela.
Bom para miúdos e graúdos que não queiram esquecer a infância.

Segue-se uma análise mais detalhada se quiserem ler…

Looper

Olha-te ao espelho

Looper chegou, o tão anunciado Messias da ficção científica do século XXI, a segunda vinda de Blade Runner. Menos angustioso que Primer, mais embrutecido que Moon, encontra-se mais próximo do filme de Duncan Jones por ser muito mais um drama com elementos de sci-fi do que um filme integral de ficção-científica.
A história é completamente clássica, a viagem de Joe (Joseph Gordon-Levitt), um “looper”, um assassino profissional encarregado de eliminar alvos do futuro que acaba por se deparar com uma vítima que é o seu Eu Futuro e que, infelizmente, deixa escapar, colocando-se na mira do sindicato criminoso para quem trabalha.

O universo é do mais pessimista e atenciosamente realista que podíamos pedir: no mundo de Looper a telekinese é uma mutação inútil e apta apenas para truques de engate; a cisão entre ricos e pobres criou um fosso impossível de passar; a poluição é dominante, sendo o smog um adereço habitual nas metrópoles; as drogas estão à disposição de todos; a economia atingiu níveis de inflação tormentosos; a população é maioritariamente pobre e há uma epidemia de vagabundos e miséria que torna o homicídio em defesa da propriedade completamente justificável.
Agradável, não? O mais assustador é o filme conseguir imprimir tão bem a ideia de uma sociedade que se conseguiu adequar perfeitamente a esta realidade, que vive com desplante sensação de passividade, aceitando estas circunstâncias de caos residente como habituais. Em tempos de crise, a falta de contestação poderá contaminar todo o mundo e Johnson foi esperto a escolher representar não a possível revolução social, mas o perigo do hábito ao mal-estar que se torna cada vez mais comum na história da humanidade.

Centipede Hz

Mesmo não conseguindo atingir o grau de composição de Feels ou Merriweather Post-Pavillion, Centipede Hz, último álbum da banda norte americana Animal Collective, consegue apresentar excelentes momentos e um ambiente peculiar, que peca pela falta de variedade. Centipede Hz funciona como um programa de rádio, unindo as músicas com interlúdios cheios de ruídos ou mesclas de outras canções. O ambiente é sólido e existe uma ideia permanente ao longo das 11 músicas presentes no álbum. O novo trabalho dos Animal Collective jorra nostalgia, como se estivesse a antever o final de uma era e a banda ponderasse o seu próprio futuro. “Será esta a nossa sonoridade? Para onde podemos evoluir? Será necessário essa passagem?”, são perguntas que ecoaram à medida que viajava por Centipede Hz. Há uma necessidade de mudança, de exploração, e com o final deste álbum, acredito que a banda se vá reinventar.

Levaram a fórmula mais acessível, construída desde Strawberry Jam (2007) e forçaram-na a novos níveis, resultando em músicas cruas, cheias de energia, mas ao mesmo tempo repetitivas e sem uma procura por inovação. Centipede Hz é muito bom quando consegue encontrar um meio-termo para todos os seus elementos, mas apresenta também alguns dos pontos mais baixos da banda desde o seu começo. Acaba por ser um álbum com uma estrutura quebrada, mas cuja mensagem consegue complementar as suas falhas.

Centipede Hz é um bom álbum, com muitos elementos para explorar e assimilar à medida que o visitam várias vezes. Tenho apenas pena que a originalidade e criatividade da banda não sejam tão proeminentes em Centipede Hz e o torne num álbum sem surpresas. Contudo, como um todo, funciona e é um dos trabalhos mais deliciosos de 2012.

Today’s Supernatural, Applesauce, New Town Burnout e Monkey Riches são algumas das músicas que aconselho vivamente a ouvirem.
Wide Eyed, interpretada por Deakin (de regresso à banda), é o ponto baixo do álbum.

por João Canelo

Uma Fuga Perfeita

Deixem-me antes de mais esclarecer que Steve Zahn é um excelente actor. Estamos entendidos? Ok, seguindo em frente…

David Twohy regressou já há uns anos, antes de se lançar para a conclusão da sua trilogia Riddick recentemente, com esta homenagem ligeira e, deliciosamente divertida, a Hitchcock. Chamo-lhe Hitchcock por via de terapia para casais, uma nova tentativa de modernizar o thriller, um trabalho que estes anos, perdido entre a carga emocional dos falsos indies, os blockbusters formatados e as comédias sonâmbulas, se revela até, original na escolha de um formato quase esquecido: o thriller adulto, com protagonistas adultos, não direccionado a um público não pensante mas sim a apreciadores de cinema que o encaram como o veículo perfeito para arte-entretenimento.

Não estou a dizer que Uma Fuga Perfeita seja o filme perfeito de há três anos, longe disso. É apenas um filme esquecido, talvez ironicamente chega cá tarde demais, que vem trazer algum novo fôlego à remessa habitual de cinema produto, comercializado nos últimos vinte anos. O mesmo cinema de Hollywood que ignora heróis com idade superior a trinta anos, vilões assumidos, um público inteligente para lá dos maiores de 18 e uma trama que apesar de prestar juramento à estrutura clássica de oito sequências, não se prende na preguiça dos enredos supraexpositivos dos últimos anos. Um filme para adultos com consciência do género e abrangência sem insultar a inteligência do público. É uma lição de amantes de cinema sobre o cinema clássico, onde a representação conta tanto quanto a tensão emocional e as revelações carregadas de urgência, a tragédia sempre ao virar da esquina, mas acompanhada de mão dada com a possibilidade de um final feliz.

Aqui há um tema: o amor é tão destrutivo quanto salvador; mas não faz questão de guiar o público ao longo do enredo como se este se tratasse de uma criança de 5 anos. Antes regressa ao final da década de 1970, inícios de 1980, quando os últimos resquícios do cinema moderno, o cinema ambíguo e realista, ainda se poderiam encontrar no cinema de puro entretenimento. Lembram-se desses filmes, onde apesar da trama ser completamente previsível, conseguiam capturar a nossa atenção com um controlo perfeito da mise-en-scene e um ritmo dedicado à imagem-movimento como veículo de narrativa, o filme ao serviço da história, e não o contrário, aquilo que encontramos hoje em dia, infelizmente.

Para quem aprecia thrillers coesos, simples, e reforçados por personagens fortes, temas sinuosos e um jogo de reviravoltas conexo com a narrativa, então este é o vosso filme.

Ruby Sparks

Há muito pouco a criticar sobre este filme, do ponto de vista do vosso crítico preferido, senão o por vezes ter a sensação clara de que o filme se apoia demasiado em convenções clássicas de Hollywood: a visita à casa da mãe para apresentar a namorada; o irmão/melhor amigo/confidente/ comic-relief; o encontro mirabolante entre o protagonista e o seu santo graal pouco depois do ponto de viragem dos 15 minutos iniciais; e toda uma outra série de coisas.

Ruby Sparks não é mais que uma versão mais apurada e, talvez por infelicidade nossa, clássica de A Vida Interior de Martin Frost.

Não deixa de ser um grande filme, e superior ao referido em todos os aspectos menos num que deveria contar, a meu ver, mais que todos: a originalidade. Daqui destaca-se apenas o final ambíguo e vagamente depressivo.

E que outra maneira há de trabalhar o amor quando se procura honestidade?

Os que procuram um objecto de cinema que não seja mais que uma dispendiosa declaração de amor entre o casal de protagonistas podem ir antes comprar o bilhete para ver Sempre A Abrir (criticado há umas semanas…não melhorou desde então e odeio aquele poster enganador). Não, Ruby Sparks é antes uma análise ficcional da qualidade destrutiva do amor, o egocentrismo como bandeira da procura de companheirismo, e fá-lo com uma exactidão arrepiante, desde os momentos em que Calvin (Paul Dano) se queixa da sua miséria solitária, ao seu formular de um exemplar feminino, a chamada Ruby Sparks (Zoe Casan), que atenda sempre e só às suas necessidades e caprichos, o desinteressar eventual por ela quando cai no conforto da relação, o controlo obsessivo da lealdade e vontade do par. Todos estes elementos podem ser picotados e enviados por correio azul para a ilha dos amargurados.

Em termos de honestidade e verosimilhança, por muito conduzido que esteja por classicismos, este é um filme exemplar sobre relacionamentos.

A história é simples, Calvin é um escritor de sucesso a passar por uma frase pouco criativa, sofrendo de falta de inspiração, e ao satisfazer um exercício do seu psicólogo descreve a companheira perfeita, alguém que o tem atormentado num sonho, a procura da sua musa, guia, a Vénus fantasma. Ao fazê-lo, acaba por criar, por tornar manifesta, essa pessoa, essa bela dona, a mulher dos seus sonhos, eterna liberal e hipster incondicional com problemas de sustentabilidade emocional, Ruby Sparks. A mulher perfeita é sempre aquela chama que se revela mais quente que todas e um dia queimará o idiota que se atreva a dançar com o fogo.